E o seu amor, é um conto ou um romance?

A literatura como metáfora do amor. Nada mais clichê, mas nada mais verdadeiro. Os poetas sempre recorrem à literatura para reinventar o mesmo do amor. Os gêneros literários, como não podia deixar de ser, também são bons ingredientes para pensar os gêneros do amor.

Talvez uma das principais marcas do conto como gênero do amor seja sua intensão. A temporalidade do conto é intensa, pouco desdobrada. Em um mesmo nexo temporal convergem diferentes séries de força, criando instantes de elevada tensão. A narrativa do conto não disputa nem concorre com narrativas secundárias ou periféricas. Os eventos sempre tratam da mesma trama. Há poucos personagens. E isso basta, pois a intensidade da narrativa impede o surgimento de personagens medíocres, medianos. As palavras são acontecimentos explosivos, veias estouradas de um coração que não cabe dentro de si.

No romance como gênero do amor, a trama principal cede sua intensidade para a extensão de tramas secundárias. Os acontecimentos fundamentais são cruzados e atravessados por eventos de menor importância. Diferentes personagens entram em cena, demandando cada um deles seus interesses particulares. O olhar fica mais atento às nuances, aos detalhes, à gradual e progressiva evolução dos acontecimentos.

Infelizes daqueles cujo gênero do amor é o panfleto, o manifesto. Estão submetidos a regras previamente determinadas, convencionadas. Não há espaço para as nuances do romance ou para a intensidade do conto. São sempre e somente ilusão de segurança, de controle. É um pobre devaneio. O panfleto é a morte do próprio gênero do amor.

Pode ocorrer de não sabermos se nosso amor se trata de um conto ou de um romance. Não é assim que nos sentimos quando lemos “A metamorfose”, de Franz Kafka? Essa indefinição pode angustiar, pois não sabemos se o conto anseia ser um romance ou se o romance guarda lampejos vulcânicos que desestabilizam a narrativa principal. E, mesmo assim, ainda estamos falando de gêneros do amor.

Conto, romance. Engana-se quem pensa que o que define o conto ou o romance seja sua duração. Não é a duração que define o gênero do amor, e sim as palavras. Não há amor sem palavras. São as palavras pensadas e faladas, ditas e escritas, benditas e malditas que definem se nosso gênero de amor é o conto ou o romance, se nosso amor é intenso ou nuançado, um magma vulcânico ou um calor de fim de tarde. E os dois gêneros são bons.