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Ser vivente e ser virtual

The Mimetic Starfish, instalação de Richard Brown no Itaú Cultural.

Tenho me interessado pelo desenvolvimento da arte contemporânea, o que inclui a relação entre produção artística e desenvolvimento tecnológico. Não caio na tentação de tentar explicar a primeira pela segunda: seria um atentado contra a arte. No entanto, diferentemente dos saudosistas míopes, incapazes de construir novas palavras para novas coisas, não sou ingênuo a ponto de desmerecer os contatos frutíferos que vem surgindo nos últimos anos entre arte e tecnologia.

É preciso diagnosticar as tendências que o tempo atual nos impõe para, somente então, propor alternativas sociais mais criativas e democráticas. Por esse motivo, visitei a exposição Emoção Art.ficial 6.0, no instituto Itaú Cultural, cujo principal objetivo é tratar dos novos problemas impostos à arte contemporânea, particularmente em sua intersecção com a tecnologia.

Não pretendo discorrer longamente sobre todas as obras da exposição, no total de dez. Cada uma delas levanta problemas particulares – alguns novos, outros antigos -, e tratar de todos eles exigiria muito da paciência do leitor. Quero, portanto, abordar uma obra em particular. Na verdade, quero levantar um único problema de uma obra.

A obra em questão é uma instalação do britânico Richard Brown, chamada The Mimetic Starfish (literalmente, “A estrela-do-mar mimética”). É uma estrela-do-mar virtual projetada sobre uma superfície lisa e opaca e que, programada com tecnologia de redes neurais, “imita” (daí a expressão “mimética”) movimentos de uma estrela-do-mar real. Se a instalação se restringisse a essa projeção, muito pouco ou quase nada traria de novo para o cenário artístico contemporâneo.

A estrela-do-mar, no entanto, é sensível ao toque, capaz de reagir ao contato do visitante. Os tentáculos virtuais podem se prolongar ou mesmo se contorcer, interagindo de acordo com a vontade do visitante. Ao simular/imitar movimentos de uma estrela-do-mar real e promover a interação entre a estrela-do-mar virtual e o visitante, a instalação levanta um importante problema não só para o domínio artístico, mas também para o científico e mesmo para o filosófico: uma estrela-do-mar virtual pode ser equiparada com uma estrela-do-mar real? um ser virtual possui o mesmo estatuto de um ser real? enfim, quais são os limites entre um ser virtual e um ser real ou, mais propriamente, um ser vivente?

Suponhamos que 5 mil pessoas – entre adultos, crianças, idosos etc. – tenham visitado a mostra Emoção Art.ficial 6.0, interagindo com todas as dez obras da exposição, inclusive a The Mimetic Starfish. Suponhamos, também, que todos os visitantes “apertaram”, “cutucaram”, “pressionaram” e “arrastaram” a projeção virtual pelos menos uma vez por, no mínimo, dez segundos – nem estou levando em conta nessa estatística a particularidade da interação infantil, que elevaria infinitamente o tempo e a intensidade do contato com a estrela-do-mar. No mínimo, a estrela-do-mar teria sido “tocada” durante 50 mil segundos, ou seja, mais de 13 horas!!! Que estrela-do-mar seria forte o suficiente para resistir a um contato tão agressivo como esse que foi promovido pelos visitantes da mostra?

Na verdade, entre uma estrela-do-mar real/vivente e outra virtual, apenas a segunda seria capaz de resistir a essa agressão. Pode-se tocar nela infinitamente, sem causar qualquer tipo de prejuízo à sua suposta, simulada e “imitada” vitalidade. A estrela-do-mar virtual não se confunde, portanto, com uma estrela-do-mar vivente, com um ser vivente, cuja vida certamente seria prejudicada pelo contato constante e cruel dos visitantes da mostra.

Um ser virtual se confunde com um ser vivente? Não, não se confunde. A imagem e o funcionamento de uma estrela-do-mar virtual são determinados pelas condições de um ambiente virtual. A não ser que o suporte tecnológico falhe, a “existência” da estrela-do-mar virtual não tem limites – por isso que a interação dos visitantes pode ser infinita. Já a vida de uma estrela-do-mar vivente é determinada pelas condições de um ambiente ecológico e cosmológico. Sua existência, sua vida é previamente limitada. E jamais resistiria a uma avalanche de “apertos” e “cutucões”.

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4 Comentários

  1. Alessandra disse:

    Também tenho gostado de observar a arte em conjunto com a tecnologia. Pode parecer absurdo, mas só recentemente fui ao Museu da Língua Portuguesa e acho que é um exemplo bem feliz disso. Uma mesa com partes de palavras, configuram-se em uma brincadeira dos visitantes e traz um mundo de significados.
    Ao mesmo tempo tenho observado como as novas gerações, em especial meu baixinho, as recebe. Eles lidam de forma diferente com o mundo e por isso lhes agrada tanto, é tudo dinâmico, intuitivo e convida a experimentar. A nós ainda há um tanto de resistência…
    Mas lendo seu texto fiquei pensando, na literatura também não acontece algo semelhante? Encarnamos uma personagem e brigamos, matamos, quebramos e, em seguida, voltamos a nossa pacata realidade. Não seria o efeito semelhante “acabar” com a estrela virtual exatamente por saber que ela ali continuará sem danos? beijos

    • Há alguns anos, visitei outra exposição que tratava do diálogo entre arte e tecnologia. Uma das obras explorava justamente o comportamento sádico do visitante. Por meio do toque, o visitante podia deformar um rosto virtual. Neste caso, podemos dizer que o que estava em questão era o ato de “acabar”, “agredir”. Mas a interatividade não pressupõe, necessariamente, essa destruição, essa agressão contra a obra. No caso da “estrela-do-mar virtual”, a interação não deforma a projeção virtual. Pelo contrário: explora os movimentos possíveis da própria estrela virtual, explora toda a sua potencialidade.
      Beijos, Alê.

  2. Eloisa disse:

    A estrela-do-mar virtual está conectada ao ambiente humano e para tanto foi criada, permitindo, em função de sua existência, uma série de reflexões
    que a outra não demandaria. É uma questão que se estende como desdobramento desde a época em que a humanidade perplexa se perguntava das transformações que adviriam do primeiro “cérebro eletrônico”. Valeu, Eduardo! Bjs. Eloísa

    • De fato, não existem reflexões que surjam do vazio. Sempre somos motivados por problemas ou por desejos concretos. Pensar a idiossincrasia da estrela-do-mar real foi possível graças à estrela-do-mar virtual. Os artistas produzem obras que, sem o saberem, levantam questionamentos que podem extrapolar a própria fruição estética.
      Beijos, minha querida!

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