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René Descartes e o espiritismo

Sobre determinadas questões, a Religião e a Filosofia parecem estabelecer um acordo de cavalheiros. Em uma reunião a portas fechadas, avaliam as principais inquietações do espírito humano e as formalizam em problemas, cuja responsabilidade é dividida entre cada uma delas. Pensar sobre a vida após a morte, por exemplo, é função da Religião, enquanto refletir sobre como o pensamento pensa a si próprio é papel da Filosofia. No entanto, há questões humanas que são litigiosas, e tanto a Filosofia quanto a Religião se sentem no direito de resolvê-las. A relação entre a alma e o corpo é uma delas.

Em determinado momento de sua História, a Religião esteve muito próxima da Filosofia. Não, não estou falando da patrística nem da escolástica medievais – que celebraram o casamento de conveniência entre a fé e a razão -, mas sim da filosofia cartesiana e do espiritismo. René Descartes (1596-1650) e Allan Kardec (1804-1869), embora afastados um do outro em torno de duzentos anos, buscaram responder de modo semelhante ao problema da relação entre a alma e o corpo – e ambas as respostas são problemáticas nos dias de hoje. Vejamos como isso aconteceu.

René Descartes reconhecia que existia uma substância pensante – a alma – e uma substância extensa – o corpo. Os músculos se movimentam, o sangue circula, os cinco sentidos são estimulados pelos objetos que se encontram à nossa volta. Por outro lado, a alma raciocina, é afetada de alegria, deseja e ambiciona alcançar um objetivo. Aparentemente, não há nada demais em dizer que a razão é uma atividade da alma e que o movimento é uma atividade do corpo. O problema, no entanto, se encontra em explicar como a alma age sobre o corpo e como o corpo afeta a alma.

Segundo Descartes, a alma está vinculada ao corpo de dois modos. Em primeiro lugar, por não ter extensão alguma, ela está unida ao corpo todo, e não a alguma região em particular. Em segundo lugar, exerce suas funções, mais particularmente, em uma glândula do cérebro, a glândula pineal, órgão intermediário que torna possível a interação entre a alma e o corpo. A luz emitida por um objeto, por exemplo, fere cada um dos olhos. Os nervos ópticos são estimulados para finalmente projetar a imagem do objeto na glândula pineal, possibilitando que a alma pudesse perceber o objeto.

A teoria cartesiana da percepção apresenta um grave problema. A alma percebe e se conscientiza dos objetos externos através, por exemplo, dos impulsos luminosos dirigidos dos órgãos da visão à glândula pineal. Sabemos, portanto, o que ocorre no caminho que vai do mundo exterior até a glândula pineal. No entanto, ficamos sem saber o que torna possível que a própria alma “perceba” a imagem dos objetos exteriores. Entendemos todo o processo fisiológico, mas continuamos sem saber como a alma “vê” imagens. Será que no interior da alma do corpo há uma outra alma, uma alma da alma, que torna possível que as imagens dos objetos exteriores sejam percebidos? Mas e essa alma da alma, o que torna possível que ela perceba? Recuaríamos infinitamente se continuássemos nosso raciocínio. Ficamos sem saber como, de fato, a percepção realmente ocorre.

O espiritismo não só não conseguiu superar esse problema como também nos chamou a atenção para outro. De acordo com a Doutrina Espírita, entre a alma e o corpo há um intermediário que permite a interação entre ambos: o perispírito. A alma ou o espírito “percebe” o mundo através do perispírito. Novamente, conhecemos o processo fisiológico que vai dos órgãos dos sentidos até o perispírito – no caso da teoria cartesiana, até a glândula pineal -, mas não sabemos como o próprio espírito “percebe” o mundo exterior. Esse problema já o conhecemos.

O segundo problema se encontra no meio da cadeia que vai do corpo até o espírito: o perispírito. Segundo o espiritismo, o perispírito é semimaterial, o que lhe permite estabelecer o vínculo entre o corpo (material) e o espírito (imaterial). Mas e entre o perispírito e o espírito e o perispírito e o corpo? Há um salto na comunicação entre o corpo e o perispírito e entre o perispírito e o espírito? Ou seriam necessárias substâncias intermediárias? E entre essas substâncias intermediárias, outras ainda? Caímos, então, em um segundo problema: seriam necessários infinitos intermediários para superar a distância que existe entre substâncias de natureza distinta. Não é necessário dizer que esse mesmo problema já se encontrava na teoria cartesiana.

A crítica ao dualismo da relação entre corpo e mente não significa o abandono de suas investigações. Apontar os problemas insuperáveis de uma perspectiva que admite para si que corpo e alma são duas substâncias, duas entidades completamente distintas não nos conduz, inevitavelmente, para um beco sem saída. Há, sim, diversas outras possibilidades de investigar a relação ente corpo e alma. Creio que o único modo de conduzir seriamente as investigações a respeito da mente é superar, definitivamente, qualquer tipo de abordagem dualista, seja ela cartesiana ou espírita, e adotar uma abordagem monista. Na filosofia da mente, o monismo nos ensina que o corpo e a alma não são duas entidades ou substâncias distintas, mas sim duas propriedades de uma mesma substância. O ser humano não seria uma junção entre uma alma e um corpo; o ser humano é a alma e o corpo reunidos, o ser humano é a própria substância. A alma e o corpo seriam apenas duas propriedades dessa substância que se chama ser humano.

No monismo, então, o problema de como a alma e o corpo se comunicam deixa de fazer sentido. Esse problema estava na pauta do dia apenas quando era preciso investigar como duas substâncias distintas se comunicam. Quando a alma e o corpo são entendidos como constituintes de uma mesma substância, de um mesmo ser, então ambos já estão, intimamente, vinculados. Alma e corpo deixam de ser desconhecidos entre si para se tornarem parceiros de uma vida.

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5 Comentários

  1. Joyce Santos disse:

    Olá, Eduardo! Estou iniciando pesquisas acerca destes assuntos e gostei muito do texto. Entretanto, quando você aceita o Monismo, mas diz: “A alma e o corpo seriam apenas duas propriedades dessa substância que se chama ser humano.” você cai em uma contradição, pois esta sua frase é a descrição perfeita do Dualismo de Propriedades, que diz que há uma única SUBSTÂNCIA, que é a física, mas HÁ DUAS PROPRIEDADES: a Física e a Mental que provêm desta SUBSTANCIA. Por favor, não estou questionando seu saber quanto à Filosofia da Mente, absolutamente. Apenas atentando que as palavras utilizadas denotam mais um Dualismo do que um Monismo.

    Quanto à problemática da ligação do Corpo Físico ao Perispírito que você apresentou, temos na Doutrina a informação de que há ‘fios’ que fazem a ligação (alguns livros subsidiários dizem que a ligação é feita, praticamente, célula por célula) entre este último e o corpo físico. Já ouviu falar em “Cordão/Fio de Prata”? Este é o conjunto destes vários outros que completam a ligação e permitem que o espírito aja sobre o corpo, bem como receba suas impressões e vice-versa. Logicamente, a ciência ainda não alcançou o conhecimento dessas substâncias intermediárias, mas com o progresso da humanidade isso se dará naturalmente. Se tiver mais interesse sobre isso, e ainda não tiver visto relatos sobre (o que eu acho difícil, kkk) posso fazer uma pesquisa para você da relação de obras espíritas que relatam, de alguma forma, sobre estes fios.

    No mais, o texto é muito elucidativo e coeso! Parabéns pela produção!
    Abraços fraternos!

    • Duca Mineiro disse:

      Oi, Joyce!
      Seu comentário é preciso e objetivo, mas quero fazer uma observação. Não há contradição entre o monismo e a consideração do ser humano como substância única. Você interpretou o conceito de substância somente do ponto de vista físico. Quando proponho abordar o ser humano como uma substância, estou propondo abordar todo o ser humano, e não somente seu aspecto físico. Por esse motivo, o termo monismo é, sim, o mais adequado.
      Conheço o conceito de cordão/fio de prata, mas ele também é insuficiente para dar conta da comunicabilidade entre substâncias distintas. Qual é a natureza do cordão de prata? Material ou imaterial? Espiritual, perispiritual ou corporal? Seja qual for a natureza, ainda resta por explicar como é possível o cordão de prata se comunicar com substância de natureza distinta. Suponhamos que a natureza do cordão de prata é perispiritual. Como é possível que uma substância perispiritual possa agir sobre uma substância corporal? Retornamos ao velho problema.
      Na minha opinião, o espiritismo sofre de uma deficiência metodológica. Ao invés de partir dos efeitos para elaborar hipóteses passíveis de crítica, o espiritismo formula princípios inadequados às observações realizadas e aos argumentos apresentados. Dito de outro modo: o espiritismo deixou de ser uma filosofia há muito tempo. A partir do momento que se tornou doutrina, o pensamento se estagnou. Não resta mais nada a não ser ter fé e rezar.
      Abraços!
      Duca Mineiro

  2. Wagner Nicaretta disse:

    Olá, Edu.
    Fiquei com gostinho de quero mais!
    O monismo acaba sendo meio antipático. Vem e diz que ambas as partes são uma coisa só. É isso? Pronto?
    Todos sabemos de onde vem o corpo. E a alma? Ela faz parte de nosso DNA e se desenvolve juntamente com nosso corpo? E quando morremos, ela morre junto com nosso corpo?
    Abraço, meu querido!

    • Fala, Wagner! O monismo não afirma que corpo e alma são uma e a mesma coisa. A teoria da mente que defende essa tese é a teoria da identidade mente/cérebro. Para o monismo, corpo e alma são propriedades distintas de um mesmo ser humano. Entendo que o monismo deixa algumas perguntas em aberto (continuidade da vida após a morte, anterioridade da alma em relação ao corpo, origens distintas de um e de outro), mas trata de outras de modo mais adequado. As doenças psicossomáticas, por exemplo, são melhor compreendidas se partimos da abordagem monista. O dualismo não consegue explicar como a alma influencia as doenças do corpo e vice-versa. Isso não impede que, futuramente, a abordagem dualista seja dominante. Contudo, no momento, para explicar fenômenos mais próximos de nosso dia-a-dia, o monismo se mostra mais interessante. Abraços, meu querido.

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