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Ser e ter: outra interpretação

Tornou-se lugar comum dizer que ser e ter são dois conceitos não só distintos mas também opostos. De acordo com essa dicotomia, o ser é o lugar dos valores, dos princípios, dos afetos, dos sentimentos nobres, da paixão, do amor, da fé. Caberia à escola e à família educar a criança e o adolescente para o ser. Por outro lado, o ter é o lugar do consumismo, da acumulação desmedida de bens, da desigualdade social, do egoísmo, do fetichismo. A mídia e a propaganda publicitária seriam as principais fontes do pensamento que alimentam o ter.

Do modo como é colocada, essa oposição entre o ser e o ter nos obriga a escolher entre duas vias irreconciliáveis: ou compartilhamos os valores que nos conduzam à solidariedade, à boa sociabilidade e à sensibilidade ou nos lançamos à mera aquisição de bens materiais, de títulos acadêmicos e de cargos profissionais. Por exigir de nós a responsabilidade por uma tomada de decisão, a oposição entre o ser e o ter expressa um dilema moral da mais alta importância para o ser humano, pois diz respeito ao que cada um define como sendo seu ideal de felicidade.

Há, no entanto, alguma coisa de estranho na oposição dicotômica entre o ser e o ter. Suponhamos alguém se conduzindo pelo “ser”. Essa pessoa se dedica diariamente a se conhecer, a se avaliar e a cultivar em si mesma todo pensamento que lhe traga paz e felicidade. Apesar de não faltar com a clareza, essa frase carece de um importante esclarecimento: o que é, exatamente, o ser? Não pode ser o corpo, pois o corpo se transforma, se corrompe, nunca permanece sendo o mesmo ontem, hoje e amanhã. Nunca temos o mesmo corpo em tempos diferentes de nossa vida; portanto, nunca o possuímos por completo. O ser, então, só pode ser a alma. E aí começa o problema.

Enquanto estamos vivos, estamos vivos em um corpo. Qualquer pensamento, sentimento ou comportamento que tivermos não pode ser pensado fora de um corpo. Não existe um pensar, um sentir-se ou um comportar-se fora de um corpo. O indivíduo que se conduz pelo “ser”, portanto, não pode negligenciar o “ter”. O indivíduo tem casa, carro, alimentos. No mínimo, um corpo. Aquele que se conduz pelo “ser” não consegue ser sem ter qualquer coisa que seja.

Vejamos, agora, uma pessoa que se paute pelo “ter”. Busca adquirir automóveis, casas, propriedades, eletrodomésticos, títulos e cargos. Para conquistar todos esses bens, deve poupar dinheiro, planejar ações, elaborar estratégias. Ora, essas três ações, para não enumerar tantas outras, não são mobilizadas pelo ter, e sim pelo ser. Aquilo que não existe, ou seja, o não ser, não é capaz de realizar todas essas coisas. Apenas o ser consegue. Portanto, apenas o ser é capaz de conquistar, de ter aquilo que deseja.

Devemos interpretar a relação entre o ser e o ter de outra maneira. Ser e ter são conceitos complementares, não dicotômicos. O dilema moral que o indivíduo contemporâneo deve enfrentar não é a escolha entre uma dessas duas vias. Na verdade, cada um deve avaliar o modo como se relaciona com o mundo, com as pessoas e consigo mesmo. A conduta moral do indivíduo será avaliada pela maneira como interage com sua casa, com sua atividade profissional, com seus amigos, com seus sentimentos. É impossível estar no mundo sem possuir coisas, assim como é impossível ter alguma coisa sem ser alguém. O que importa é como decidimos nos relacionar com as coisas, seja um cargo político ou o próprio corpo.

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