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Um dia você vai entender

Nas aulas de história, o iluminismo é um conteúdo didático obrigatório. É ministrado já no ensino fundamental II, frequentemente entre o 8° e o 9° ano. Os alunos aprendem que os pensadores desse período ficaram conhecidos como “iluministas” pelo fato de pretenderem retirar o ser humano das trevas da ignorância, submetido a essa condição durante séculos em virtude dos dogmas e das superstições ministrados pela Igreja Católica. O desenvolvimento da razão seria suficiente para esclarecer os aspectos mais obscuros da existência e para incentivar o ser humano a recusar todo e qualquer ensinamento baseado unicamente na autoridade de quem fala. Com os iluministas, a razão adquiriu autonomia.

A criação e a proliferação de escolas seriam os principais meios de contribuir para o desenvolvimento racional de todo ser humano. No entanto, a escolaridade não garante a superação do pensamento dogmático e supersticioso. A razão exige um trabalho constante e permanente, pois reconhece que é incapaz de elevar todo ser humano ao pensamento esclarecido de uma só vez. O irracional é um componente inerente ao ser humano e pode se manifestar mesmo na mente dos mais esclarecidos.

O irracional se expressa de muitos modos. Interessa-me muito o modo como o irracional se manifesta na linguagem, e isso pode acontecer mesmo entre aqueles que, supostamente, atingiram a idade da razão e buscam justificar suas palavras e suas ações recorrendo a um expediente muito curioso: “um dia você vai entender”. Essa frase pode ser pronunciada em circunstâncias muito diversas, mas frequentemente implica uma determinada relação entre os interlocutores. Muitas vezes, quem diz “um dia você vai entender” coloca-se, automaticamente, no lugar daquele que viveu mais, estudou mais, superou mais adversidades; enfim, se mostra como um ser humano mais completo. Quem escuta essa frase é colocado no lado oposto: viveu menos, estudou menos, enfrentou poucas adversidades; é um ser humano menos completo, ou seja, um ser humano incompleto.

O leitor talvez já deve ter percebido que essa frase não implica apenas um contexto comunicacional, mas também uma relação de poder entre o emissor e o destinatário. Se prestar um pouco mais de atenção, o leitor vai perceber também que essa frase pressupõe uma forma determinada de saber e de conhecimento. Portanto, temos em uma única frase a associação entre uma forma de conceber o poder e um modo de compreender o saber. Vou destacar dois aspectos desse problema: a relação entre conhecimento e experiência e a diferença entre entender uma situação e reproduzir a mesma situação.

Com o iluminismo, o conhecimento baseado na tradição foi criticado. Ser mais velho e ter vivido mais deixou de ser condição para ser sábio. O velho e o sábio não se identificam mais, a razão não tem mais idade. O jovem recém chegado à fase adulta e o velho que se encontra no crepúsculo de sua existência podem saber a mesma coisa. A frase que estamos analisando, contudo, recupera a identidade entre mais antigo e mais sábio, entre mais vivido e mais sabido. Se, de acordo com a frase, alguém vai entender uma situação “um dia”, um dia que não foi ontem nem é hoje, então o entendimento virá apenas no futuro, quando esse ser humano tiver vivido mais, sofrido mais, lutado mais. Nesse caso, a razão deixa de ser suficiente para compreender uma situação. Apenas a idade é capaz de nos conduzir à sabedoria.

É verdade que a maturidade e os incansáveis anos de estudo e dedicação nos aperfeiçoam em uma determinada arte. Contudo, jamais o mais velho e o mais antigo serão critérios seguros para definir o mais sábio ou o mais habilidoso.

O segundo aspecto dessa frase que pretendo analisar é ainda mais interessante. Pensadores como Espinosa (vale dizer que Espinosa não é propriamente iluminista) não se contentaram em elaborar um método racional para a aquisição do verdadeiro conhecimento, mas também se dedicaram a entender como a superstição funciona, como ela nos ocorre. Apesar de investigar as raízes da superstição, Espinosa não se submeteu a ela. Entender não significa se submeter.

Frequentemente, a frase que estamos analisando é proferida em um contexto em que uma situação ou uma prática consolidada é questionada. O “mais novo”, o “menos vivido” questiona a reação do “mais velho”, do “mais vivido” a um determinado evento. O suposto “mais sábio” diz: “um dia você vai entender”. O que isso quer dizer? Quer dizer que o “mais novo”, quando enfrentar o mesmo tipo de situação, vai repetir a mesma reação do “mais velho”? Mas quem disse que entender significa repetir? O “mais novo” pode, simplesmente, compreender aquela situação, mas agir de um modo diferente.

É importante repetir: a razão jamais realizará seu trabalho de uma vez por todas. Cada época exige um trabalho específico da razão, mesmo que seja um trabalho de crítica sobre si mesma. Estranhei muito quando conheci pessoas escolarizadas, até mesmo formadas em cursos de graduação, que recorriam a frases desse tipo para justificar uma decisão. Mas talvez faltasse uma compreensão mais ampla do ser humano: a razão é apenas uma de suas forças, uma de suas potências, mas não a única. O primitivo, o irracional e o recalcado sempre podem retornar, mesmo quando a razão parece predominar.

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