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Só falta vir com o manual…

Lembro-me de quando era adolescente e meus hormônios se agitavam incansavelmente. Uma leve brisa era capaz de me gerar um frisson. Uma das maneiras de satisfazer meu desejo transformado em curiosidade era ler sobre sexualidade. Havia um jornal naquela época que toda segunda-feira vinha acompanhado de um encarte voltado ao público adolescente. Diversos assuntos de meu interesse eram tratados naquele encarte: esporte, música, comportamento e, o mais importante, sexualidade.

Creio que foi naquele encarte a primeira vez que li a expressão parceiro ou parceira sexual. Foi uma novidade imensa para mim! O encarte de um jornal de ampla circulação permitia que aquela expressão tão transgressora, tão proibida pudesse ser lida por adolescentes como eu? Apesar de ignorar todo o contexto social em que a expressão havia sido formulada – revolução sexual, feminismo, crítica à noção de família burguesa etc. -, sabia que havia nela algo de interessante e excitante. Os textos eram voltados para adolescentes, ou seja, para aqueles que, muito provavelmente, ainda não haviam casado, mas reconheciam que os adolescentes também desejavam, também fantasiavam, também queriam conhecer o corpo de uma outra pessoa. Que expressão maravilhosa! Imaginava como devia ser bom ter parceiras sexuais.

Os estudos, as vivências pessoais e os anos passados, no entanto, me fizeram desconfiar daquela expressão. Aqui abandono o tom memorialista para entrar em um andamento mais reflexivo. Pensem comigo. A noção de parceiro sexual trouxe uma ambiguidade semântica e política. Por um lado, a psicologia e a sexologia incorporaram em seu vocabulário uma expressão que rompeu com a tradicional forma de união reconhecida pelo direito e pela religião: o casamento. A atividade sexual viu-se desvinculada do matrimônio, adquirindo um estatuto independente, com sua dinâmica e convenção próprias.

É verdade que a prostituição também está baseada nessa separação entre união matrimonial e sexo, mas a parceria sexual, ao contrário das atividades exercidas pelos garotos e pelas garotas de programa, não é mediada pelo intercâmbio monetário. A novidade da parceria sexual reside em sua capacidade de afastar a sexualidade tanto do compromisso matrimonial quanto da prostituição. O primeiro efeito imediato dessa perspectiva é a imagem do sexo pelo prazer, não para a procriação; é o sexo visto como um fim, não como um meio; é a distinção entre mera cópula e sexualidade. O segundo efeito é o reconhecimento de que a sexualidade é um componente fundamental de uma relação, e não mero anexo. Enfim, a sexualidade adquiriu estatuto próprio, independente de qualquer compromisso matrimonial ou de qualquer intercâmbio mercantil, e tornou-se não mais um dever, mas sim um direito, tanto do homem quanto da mulher.

Por outro lado, contudo, a noção de parceiro sexual sofreu um desinvestimento do afeto, reduzindo o encontro, em última análise, a mera contratualidade. As orientações fornecidas pelos psicólogos e sexólogos aos seus clientes a respeito de seus diversos parceiros sexuais assemelham-se às orientações jurídicas fornecidas pelo advogado. Muitas vezes, parece que o que está em jogo não é a riqueza do afeto envolvido entre duas ou mais pessoas, mas sim saber qual é o melhor modo de o cliente maximizar seu prazer, minimizando seus riscos com doenças ou frustrações, como a impotência, a ejaculação precoce e a frigidez. A pluralidade dos níveis de afeto, que mostrou que o casamento não é a única forma legítima de se amar e de sentir prazer, acabou sendo neutralizada, em alguns casos, na forma do parceiro sexual, termo que coloca em pé de igualdade todas aquelas variadas formas de afeto entre duas ou mais pessoas.

Os resultados dessa mudança não são difíceis de identificar, mas destaco apenas um. É possível – leia-se bem: é possível – que a noção de parceiro ou parceira sexual indique, atualmente, um mero instrumento para a aquisição do prazer individual. A sexualidade, então, deixa de ser uma descoberta entre duas ou mais pessoas e fica reduzida unicamente à cópula. E a cópula, por sua vez, deixa de ser liberdade e prazer para transformar-se em dever. Qualquer semelhança com a noção de ditadura do prazer de Lacan não é mera coincidência.

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