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Já não sei mais como se anda

Em nosso cotidiano, o pragmatismo visa minimizar as adversidades que dificultam a realização de um fim qualquer. Os preconceitos, as superstições, os princípios, os saberes consolidados, a organização do espaço, a ordenação do tempo, a disposição das pessoas e os princípios são equiparados e des-hierarquizados, perdem seus valores, e seus graus de importância tornam-se indiferentes. O tempo do almoço, o ritual que precede um trabalho, guardar o sábado, enfim, todos eles devem ser racionalizados.

O pragmático tem uma única pergunta: de que modo devo organizar meu tempo, distribuir o espaço, utilizar os saberes e os princípios para alcançar um objetivo específico? Tudo aquilo que nos dá significado, que compõe aquilo que chamamos de vida torna-se mero instrumento ou pavimento. Caso contrário, deve ser abandonado e esquecido.

Uma breve pausa. Por que será que, ultimamente, as empresas têm tido tanto interesse nos valores, nas experiências e nas habilidades de seus funcionários? Será que estamos observando um retorno à já ultrapassada noção de comunidade produtiva, em que a esfera da produção será preenchida de valores e de significados? Creio que não. Todos os nossos saberes, competências e princípios devem ser reafirmados numa empresa, mas com a condição de que estejam voltados ao aumento da produtividade. O capitalismo percebeu que não precisa ser tão disciplinador com o trabalhador. Basta alimentar no trabalhador seu desejo e suas paixões, reorientar seus medos e suas frustações para, enfim, torná-lo um empregado melhor. Mas não nos enganemos: não devemos reduzir o pragmatismo a um sintoma do capitalismo tardio, pois sua abrangência é mais ampla. Fim da pausa.

A conduta pragmática conduz à diminuição ou à perda do significado da vida. Todos os saberes, atitudes e condutas devem ser pensados apenas em sua capacidade de atingir um fim, de alcançar uma meta. A mente pragmática abstrai o significado desses elementos e os avalia como meros instrumentos para alcançar o objetivo. É verdade que se o pragmático tivesse um único objetivo, então sua conduta se justificaria. Seria alguém que mobilizou todos os esforços possíveis para a consecução de uma obra. Mas não é esse o caso. O que importa não é o objetivo, porém sempre encontrar o caminho mais racionalizado para a realização do objetivo.

Muitos podem confundir essa conduta pragmática com a famosa expressão “os fins justificam os meios”. No entanto, enquanto para este último o fim tem um significado tão importante que todos os meios devem ser mobilizados para atingi-lo, já no pragmatismo não importa o fim; importa é chegar a esse fim, seja ele qual for.

No limite, o pragmático é vazio. Vazio de significado, vazio de compreensão, vazio de potência. E pior: vai procurar na racionalização de seu cotidiano incipiente a solução para os seus problemas, tornando sua vida, que já é um redemoinho, cada vez mais neurótica, porque incapaz de encontrar um significado, o mais elementar que seja, no mero caminhar.

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