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Do lado esquerdo da verdade

A noção mais geral de verdade pressupõe os conceitos de necessidade e de universalidade. A necessidade nos diz que aquilo que o conhecimento verdadeiro afirma não pode ser diferente em hipótese alguma. Se a lei da gravidade é verdadeira, então todos os fenômenos físicos devem ser submetidos a essa lei. Não há escolha. Já a universalidade mostra que a verdade deve ser idêntica a si mesma em todos os lugares e em todos os tempos. Não há exceção para a verdade.

O sentido tradicional de verdade nos coloca um intrincado problema. Se a verdade é necessária e universal, então todo conhecimento que lhe for contraditório ou que manifestar algum grau de exceção à regra deve ser considerado falso. Vejamos uma situação atual. A democracia não se tornou apenas o horizonte político obrigatório do mundo ocidental, mas também referência e medida de análise para todo e qualquer governo do mundo, utilizada principalmente em discursos políticos internacionais. Assim, países teocráticos ou com tendências a regimes não democráticos fugiriam dessa medida. Qual o lugar da tolerância em situações desse tipo? Se a democracia é o horizonte político obrigatório de todo e qualquer país, qual a postura esperada em relação àqueles países que não tomam a democracia como modelo?

A tolerância deve ser a resposta esperada a essa pergunta, por um único motivo: a razão possui limites que impedem o ser humano de alcançar um conhecimento necessário e universal. Se a razão da ONU e dos governantes dos principais países ocidentais não é capaz de abranger a totalidade da realidade, então a tolerância se impõe como necessária. Ao contrário, a intolerância é a resposta imediata quando não se reconhece a falibilidade da razão.

Com a exigência de uma postura tolerante, podemos pensar, então, na noção de verdade relativa. A verdade relativa, por ser verdade, não deixa de ter que cumprir com os critérios de necessidade e de universalidade. Por outro lado, por ser relativa, essa necessidade e essa universalidade estão restritas a uma relação específica e determinada entre o portador da verdade e o objeto sobre o qual se enuncia a verdade; de modo geral, o mundo. A verdade relativa, portanto, é necessária e universal, mas apenas quando enunciada de um determinado lugar, de um determinado ponto de vista.

No contexto da verdade relativa, a tolerância enfrenta um problema insuperável. A postura tolerante implica em abandonar o ponto de vista de onde se fala sua própria verdade e assumir o ponto de vista de outra pessoa ou grupo social. Nesse deslocamento, torna-se praticamente impossível um verdadeiro diálogo, pois cada pessoa e cada grupo social já possuem sua verdade. Tolerar a verdade do outro significa abandonar sua própria verdade. Não devemos confundir com a indiferença, comportamento mais do que comum em nossa sociedade. A postura indiferente não é uma forma de tolerância, mas sim um modo de “pragmatização” da realidade. As outras verdades são pensadas apenas enquanto podem me trazer um benefício ou um prejuízo.

A verdade religiosa é uma situação ainda mais complicada. A verdade religiosa está fundamentada em um domínio supra-histórico e suprassensível. Portanto, verdade absoluta. Mas a maioria das igrejas e templos religiosos precisa lidar com a máxima de “amar ao próximo como a si mesmo”. Então, para essas igrejas e templos, a tolerância não é o reconhecimento da falibilidade de sua razão e o respeito da razão do outro, mas sim o reconhecimento de que o outro será punido no pós-vida pela sua ignorância e/ou encontra-se em estágio inferior na escala evolutiva e, portanto, provavelmente, um dia alcançará a verdade.

Que nos resta? Será o caso de abandonar a noção de verdade e de recuperar a noção de convencimento, de disputa pelo direito de dizer, de território linguístico a ser conquistado, de substituir o oráculo que anuncia pelo bruxo que tenciona com outro bruxo?

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