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Potencial ou inaptidão?

Em reportagem de 13 de novembro de 2012, publicada pela BBC, o historiador britânico Laurence Rees (nascido em 1957) abordou a ascensão de Adolf Hitler ao poder na Alemanha. A situação desastrosa da economia alemã no pós Primeira Guerra não foi ignorada pelo historiador, mas sua preocupação maior era fazer uma descrição e análise da personalidade de Hitler e sua relação com o povo alemão.

Hitler ficou conhecido no mundo inteiro por suas supostas habilidades oratórias, o que o tornava capaz de hipnotizar multidões inteiras, desde membros da alta burguesia alemã até crianças ainda não chegadas à adolescência. Porém, de acordo com o historiador, antes de se tornar conhecido e alcançar não só a liderança do Partido Nazista, mas também o governo da Alemanha, Adolf Hitler era um “joão-ninguém […] [cujas] fraquezas eram percebidas como qualidades”.

Fraquezas percebidas como qualidades. Como é possível que toda uma nação houvesse se curvado diante de fraquezas e de inabilidades políticas? O carisma e o magnetismo de Hitler eram tão profundos que conseguiam facilmente ocultar suas deficiências comunicativas e intelectuais? Sabemos que o revanchismo alemão e o contexto social e econômico da Alemanha foram algumas das condições que possibilitaram a ascensão de um líder como Hitler, mas não é esse o aspecto da matéria que considero mais interessante.

A matéria me fez lembrar uma avaliação que ouvi durante muito tempo sobre determinadas pessoas, que pode ser resumida da seguinte forma: “O sujeito tem muito potencial, sei que ele é bom”. No entanto, quando verificava quem era a pessoa, via alguém com dificuldade de se expressar, de se comunicar e de aceitar críticas. Ora, o que significa dizer que uma pessoa que não é capaz de dialogar é alguém com potencial?

O termo potencial pode ser associado ao termo ato. Numa livre apropriação de Aristóteles, podemos dizer que o movimento é a potência atualizada, a potência que se tornou ato, enquanto o repouso é a potência que ainda não veio, que não se realizou. Assim, o sujeito tem potencial quando ainda não atualizou ou não tornou atual qualidades que permanecem ocultas e inativas. Se partirmos dessas considerações, o que torna alguém capaz de reconhecer qualidades potenciais em uma outra pessoa, qualidades que estão inativas?

É verdade que a intuição ou o sexto sentido é um recurso muito utilizado para diagnosticar essas qualidades. É verdade, também, que essa mesma intuição pode acertar muitas vezes. No entanto, o que não é verdadeiro é dizer que toda pessoa que encontra dificuldades de relacionamento, de expressão e de produção de sentido é, necessariamente, um gênio. Beethoven perdeu gradualmente a audição e chegava a ser muito agressivo no contato com as pessoas. Mas o que o tornou um gênio da música não foi seu mau humor, mas sim sua obra, sua 9ª sinfonia, sua sonata nº 14. Rousseau abandonou todos os filhos que teve, mas é conhecido até hoje por suas teorias pedagógicas, e não por sua péssima habilidade paterna.

Vi e vejo muitas pessoas com grandes dificuldades de relacionamento assumindo papeis importantes em agremiações religiosas, funções de gestão em empresas e altos cargos políticos. Essas pessoas têm potencial? Que me importa? Importa o que ela faz, o que ela escreve, calcula, planeja, cria. Se jovens adolescentes não conseguem assumir responsabilidades, se adultos já formados sentem-se vitimados pelas desventuras ordinárias da vida, não é porque são gênios mal compreendidos. Podem até ser, mas só o serão de fato quando mostrarem a que vieram.

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