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Nas fronteiras do pedagógico

Assisti a um filme chamado A Onda (2008), de Dennis Gansel. O filme narra a história do professor Reiner Wenger (Jürgen Vogel), responsável por ministrar aulas sobre autocracia durante a semana de projetos pedagógicos da instituição escolar em que leciona. A escolha do tema não foi voluntária, o que o deixou inicialmente contrariado. No entanto, logo nos primeiros instantes da primeira aula, depois de rapidamente recuperar os conhecimentos já aprendidos pelos alunos sobre o tema, Reiner, baseando-se nas falas dos alunos, se depara com uma questão fundamental: é possível o retorno de um regime fascista na Alemanha contemporânea? É com base nessa questão que Reiner vai planejar as aulas daquela semana de projetos.

O planejamento das aulas elaborado por Reiner, no entanto, não segue um modelo tradicional. Reiner decide, sem que os alunos o saibam, realizar com eles um experimento sociológico. Institui regras severas para os alunos se dirigirem a ele. Para falar durante a aula, cada aluno deve se levantar e utilizar frases curtas e objetivas. Princípios como ordem e disciplina começam a ser valorizados. São criados um nome, um logo e um uniforme para o grupo. Durante esse processo, os alunos vão se interessando cada vez mais pelas aulas, estabelecendo laços afetivos cada vez mais fortes entre eles e mesmo com o professor, que começa a saborear o prazer de se afirmar progressivamente como líder inquestionável do grupo.

O experimento sociológico, contudo, é uma tragédia. Reiner perde o controle sobre os alunos, que não só passam a hostilizar aqueles que não integram o grupo como também sentem-se superiores a eles. Temeroso dos rumos que o experimento pode tomar, Reiner decide encerrá-lo. Convoca todos os alunos do grupo para um importante pronunciamento no último dia da semana de projetos. Depois de realizar um discurso ufanista e de ameaçar punir um suposto traidor do movimento, Reiner explica aos seus alunos que seu objetivo durante aquela semana de aulas era mostrar que a possibilidade do retorno de um regime autocrático não era tão remota quanto se pensava. Em seguida, decreta o fim do movimento. Entretanto, um dos alunos não aceita essa decisão e, armado, não só atira em outro colega, ferindo-o, como também comete suicídio. O filme é encerrado com a prisão Reiner.

Guardadas as devidas proporções, a história do professor Reiner, narrada ficcionalmente no filme A Onda, me fez lembrar do caso do professor de Filosofia Antonio Kubitschek, que leciona em uma escola pública na cidade de Taguatinga, Goiás. Durante o mês de abril deste ano, o professor Antonio ficou muito famoso. Em uma de suas avaliações, Antonio lançou uma pergunta de múltipla escolha que, não só abordava a cantora Valeska Popozuda, como a definia como pensadora contemporânea. Um dos alunos, estranhando o conteúdo daquela pergunta, tirou uma foto da prova e publicou nas redes sociais. O professor Antonio logo ficou conhecido. A grande mídia noticiou o fato, mas sempre apresentando uma abordagem superficial ou mesmo agressiva e acusatória. Foi somente em um post do blog Socialista Morena, de Cynara Menezes (http://socialistamorena.cartacapital.com.br), que o fato recebeu uma reportagem decente e investigativa.

O professor de Filosofia se justificou sobre a inclusão de uma pergunta sobre a Valeska Popozuda na prova. Antonio procurou romper com o estereótipo negativo atribuído a determinado estilo musical (no caso, o funk) – como ele mesmo disse em outra reportagem, ninguém questionaria se o cantor Chico Buarque fosse chamado de filósofo, apesar de não o sê-lo. Mas seu principal objetivo ao incluir uma questão sobre a Valeska Popozuda em uma prova de Filosofia era fazer uma provocação à grande mídia. Antonio já esperava que um de seus alunos comentasse a prova nas redes sociais. Também era esperado que o fato chegasse aos ouvidos da mídia (pelo menos, da mídia local). Por fim, o professor esperava comprovar que a mídia está mais atenta para fatos que aparentemente desabonem a escola pública do que para projetos de sucesso. Se nos fiarmos na reação inicial da mídia, a tese do professor foi comprovada.

Assim como o projeto desenvolvido pelo professor Reiner no filme A Onda, a atividade promovida pelo professor Antonio foi um experimento sociológico. Nos dois casos, o professor quer provar uma tese. No filme, o professor Reiner quis provar que o regime fascista não está tão distante da realidade contemporânea. Em Taguatinga, o professor Antonio quis mostrar que a imprensa se preocupa mais com notícias que desabonem a escola pública. Para provar essa tese, são realizadas uma ou mais atividades que envolvem os próprios alunos. Os alunos não sabem que a finalidade dessas atividades não é, propriamente, pedagógica. Durante o processo, os alunos são participantes involuntários do experimento sociológico. Ao fim do processo, os alunos tornam-se os beneficiários, os pesquisadores do experimento.

Meu interesse não é avaliar as condições que conduzem um experimento sociológico ao sucesso ou ao fracasso. Também não pretendo refletir sobre as conclusões alcançadas por cada um desses dois experimentos. Minha questão é avaliar quais são os efeitos de um experimento sociológico aplicado em um ambiente pedagógico, sabendo-se que os alunos transformam-se em participantes do experimento para, em seguida, tornaram-se observadores desse mesmo experimento.

Quero compreender essa situação com base em uma interpretação livre da ideia de contrato pedagógico. Segundo essa perspectiva, a relação entre o professor e o aluno é regida, consciente ou inconscientemente, por um contrato. O professor tem o dever de ensinar, enquanto o aluno tem o direito de aprender. É impossível prever como o aluno vai aprender, mas se espera que todos os recursos utilizados pelo professor em sala de aula ou fora dela estejam voltados para o ensino. Essa expectativa não é ruim, pois é ela que fornece segurança e estabilidade para o aluno aprender. A utilização do experimento sociológico no ambiente pedagógico, contudo, rompe com essa estabilidade e com o contrato. Nesse contexto, os recursos pedagógicos não são utilizados para transmitir um conteúdo, para mediar a relação do aluno com o conhecimento, para mensurar o conteúdo aprendido ou para avaliar a aquisição do saber. Os recursos são utilizados para verificar a reação dos alunos a determinado evento, não enquanto alunos, e sim enquanto pessoas, enquanto sujeitos que poderiam ou não estar na escola. O experimento sociológico rompe os limites do cenário pedagógico, pois os alunos não são vistos mais como alunos, e sim como participantes de um experimento, cujos resultados não estão previstos. Durante o experimento, os alunos interpretam as diretrizes a que estão submetidos como instrumentos pedagógicos alternativos ou diferenciados, e não como procedimentos de um experimento propriamente dito. Apenas no fim do processo, quando o professor esclarece o que de fato aconteceu,  que os alunos se dão conta de que aquelas práticas pedagógicas tão diferentes não eram, na verdade, pedagógicas.

Por outro lado, o experimento sociológico em sala de aula também pode gerar efeitos pedagógicos interessantíssimos. Um dos alunos do professor Antonio, por exemplo, divulgou um texto na internet em que criticava as reações mais imediatas da grande mídia e das redes sociais, baseando seus argumentos na teoria do desenvolvimento moral de Kohlberg. De forma brilhante, criativa e espontânea, o aluno conseguiu estabelecer vínculos frutíferos entre o conteúdo ensinado em sala de aula e os processos sociais em que está envolvido. Provavelmente, caso o experimento sociológico não tivesse sido feito, o aluno jamais seria mobilizado por um acontecimento que o inquietasse a tal ponto de fazer surgir nele o desejo de escrever um texto.

Algumas considerações finais. O experimento sociológico rompe as fronteiras do ambiente pedagógico. Cria uma ficção que desestabiliza os papeis assumidos pelo professor e pelos alunos. Os resultados podem ser positivos ou negativos. No filme A Onda, os resultados foram negativos, desastrosos, trágicos. Na experiência promovida pelo professor Antonio em Taguatinga, os efeitos foram, até onde sabemos, positivos, benéficos, interessantes. Nos dois casos, os resultados alcançados extrapolaram o esperado, liberaram forças e potências não previstas. Para o bem ou para o mal, os resultados foram, acima de tudo, perigosos.

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1 Comentário

  1. Alessandra disse:

    Boa reflexão!
    Eu acho mesmo que perigoso é a falta de clareza, de objetivo e ausência de contrato pedagógico a quem algumas crianças são submetidas diariamente e que não merecem notícias porque mantém a educação exatamente como a querem, alienante…

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