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Jesus e a sagrada família gay

Agora, chega! (eu sei: parece o início de algum artigo do Reinaldo Azevedo)

Certo dia, acordei envolvido pelo Espírito Santo. O dia estava coberto de nuvens negras, o vento zunia intensamente, raios partiam árvores ao meio e trovões anunciavam o retorno do pastor. Guiado por uma voz interior, abri a porta de minha casa totalmente nu e me permiti ser abençoado pelo Grande Pai. Sabia que havia sido escolhido para uma grande missão, para uma grande tarefa, daquelas que somente duas ou três pessoas em cada geração são capazes de assumir. Ao contrário de muitos covardes, eu sabia que não temeria o chamado divino. Ergui os olhos para a imensidão celeste em direção a Jerusalém, aguardando ansiosamente as palavras do Grande Pai. Para espanto meu, algumas nuvens à minha direita se afastaram, permitindo a passagem de alguns raios de Sol. A voz de Deus não vinha do Leste, mas do Sul. Foi então que ouvi:

– Judas, meu querido Judas. É preciso cuidar de meu rebanho, tão desvirtuado e tão carente de proteção. Em um futuro próximo, você será encarregado de educar as crianças, de trazer conforto aos desabrigados, de levar a paz às famílias destruídas. No entanto, Judas, antes de você assumir essa missão, preciso saber se você realmente é capaz. Você será submetido a um teste. Quero que você reúna todos os argumentos ensinados pelo meu Filho dileto que denunciam a homossexualidade e a adoção de filhos por pais homossexuais. Esse é seu grande teste.

– Sim, meu senhor – respondi -, farei exatamente o que o Grande Pai meu pediu.

Se você chegou até aqui, é porque a questão também lhe interessa. Como vocês devem ter percebido, não podia consultar o Velho Testamento ou outros textos do Novo Testamento, como as cartas de Paulo de Tarso. Eu devia me basear unicamente nas palavras de Jesus. Pois bem: li avidamente os quatro evangelhos. Li 69 vezes cada evangelho, li os evangelhos de 4 em 4 horas, li os evangelhos enquanto me apoiava no poste aguardando o ônibus chegar. Qual não foi a minha surpresa quando, depois de tanto estudar os quatro evangelhos, cheguei à conclusão de que não só Jesus nunca condenou a homossexualidade como também não há sequer uma única menção à orientação sexual de cada pessoa. Que decepção…

Restava-me uma única esperança: encontrar nos evangelhos as denúncias contra a adoção de filhos por pais homossexuais. Nem preciso dizer que essa cruzada foi inútil. Jesus sequer abordou diretamente a adoção de filhos. Além disso, quando escutou que sua mãe e seus irmãos o procuravam e o vinham buscar, lançou a seguinte pergunta: quem é minha mãe e quem são meus irmãos? Ou seja: Jesus colocava em questão se o que definia uma família era realmente a consanguinidade.

Depois de todas essas frustrações, pensei: fodeu! Jamais o Grande Pai me promoveria a auxiliar de seu mandato.

Quando me encontrei novamente com Ele, tentei me explicar:

– Grande Pai. Esforcei-me para atender ao seu chamado, mas falhei. Não encontrei em nenhum dos evangelhos qualquer condenação contra a homossexualidade ou contra a adoção de filhos por pais homossexuais. Não sou digno de sua complacência nem de sua soberania. Devo ser punido.

Depois de me lamentar e chorar convulsivamente, escutei uma grande gargalhada, estrondosa, que vinha do Céu. Estranhei. Será que Deus era tão sádico assim? Alguns instantes se passaram, e a gargalhada foi interrompida pela doce voz do Grande Pai:

– Judas, e quem disse que meu filho dileto havia condenado a homossexualidade ou a adoção por pais adotivos? Quem disse esse absurdo? Meu filho jamais diria isso. Jesus é comunhão, e não separação. Jesus é encontro, e não desencontro. Você conseguiu passar no teste, Judas. Você vai fundar uma nova igreja, uma igreja realmente cristã.

– Grande Pai, uma nova igreja? O senhor sabe o que vai acontecer. Logo vão me considerar irrepreensível e santificado. Vão erguer monumentos em meu nome. Ao mesmo tempo, vão se esquecer dos ensinamentos mais puros de seu Filho.

Deus pensou, pensou e pensou. Sabia que Judas estava correto, mas não podia desperdiçar uma alma tão corajosa como a dele. Só havia uma saída.

– Humm, está bem, Judas. Você não será o fundador de uma nova igreja cristã. Contudo, sua nova função será muito mais penosa. Você será ativista político.

– Ativista político? Me parece uma boa ideia… Aceito!

– Mas veja bem, Judas, só não vá explodir as casas dos reacionários, hein?

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