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A discriminação nossa de cada dia

Ao sair de manhã para trabalhar, encontrei no elevador um casal que conversava entre si. A mulher fazia chacota sobre o movimento gay, dizendo que, agora, os homossexuais denunciam qualquer fatalidade como homofobia. “Se um vaso cai na cabeça deles”, dizia ela, “logo vão dizer que é homofobia”. E continuou: “se alguém o desrespeita, vão dizer que é homofobia. Tudo é homofobia!”.

Não interrompi aquela conversa, mesmo porque eu não havia sido convidado, mas saí do elevador intrigado com aquelas palavras e levantei uma questão para mim mesmo: por que membros de alguns setores da sociedade brasileira encontram tanta dificuldade em reconhecer, não só a causa homossexual, mas também todo o empenho e esforço das minorias em lutar e conquistar seus direitos? O que leva esses setores a não compreender a discriminação e a acusar os movimentos das minorias como manifestação de uma vontade de implantar uma “ditadura”, seja ela de homossexuais, de mulheres ou de negros? Por que esses movimentos sociais não são reconhecidos como conquista de direitos, e sim como vitimização e demanda por privilégios?

Para sustentar sua opinião, um dos argumentos mais frequentes apresentados por esses mesmos setores é mostrar que a discriminação sofrida pelas minorias equivale ou tem o mesmo peso e valor que as demais formas de discriminação. Para tornar mais forte esse argumento, relatam exemplos pessoais de discriminações e/ou bullings, sofridos na infância ou na adolescência, que não foram causados por serem negros, mulheres ou gays, e sim em função de suas características físicas ou psicológicas.

Alguém vai dizer que sofreu violência moral durante a adolescência por causa do tamanho do nariz ou das orelhas, porque era loira ou ruiva, porque tinha espinhas ou pernas tortas, porque era disléxico. Em nenhum momento, no entanto, precisou fazer disso uma causa, um protesto, como fazem os homossexuais, as mulheres e os negros. Se uma criança que sofreu bulling durante a infância por ter as pernas tortas conseguiu se tornar um grande jogador de futebol sem precisar de nenhuma bolsa ou ajuda do governo, se uma jovem cheia de espinhas tornou-se uma modelo de sucesso por seus próprios méritos, por que, então, os negros, as mulheres e os homossexuais fazem tanto barulho por aquilo que sofrem?

Os questionamentos desses setores da sociedade, que não reconhecem a importância dos movimentos sociais em defesa das minorias, pressupõem que a discriminação sofrida pelas minorias tem o mesmo peso que qualquer outra discriminação, o que não é verdade. As práticas discriminatórias contra as minorias são diferentes das demais práticas discriminatórias. O bulling sofrido por aquela criança de pernas tortas ou por aquela jovem com espinhas são casos isolados que dificilmente vão se repetir em outros momentos de suas vidas. A criança não encontrará obstáculos para se tornar um jogador de futebol ou um engenheiro por causa de suas pernas, assim como a jovem não terá dificuldades para comprar um carro em uma concessionária ou para ser aprovada em uma entrevista de emprego em função de suas espinhas. Discriminações desse tipo são casos isolados.

A discriminação contra as minorias, entretanto, não são casos isolados. Se aquela criança de pernas tortas for negra, ela pode sofrer discriminação não apenas quando criança, mas também quando jovem, quando adulto, no campo de futebol, fora do campo de futebol, na empresa em que trabalha ou fora dela. A jovem, pelo fato de ser mulher, pode sofrer com o assédio sexual no trabalho, na família, na rua, nos espaços públicos.

Isso quer dizer que um ato discriminatório contra as minorias se insere em uma longa série de outros eventos discriminatórios, cujo conjunto configura a discriminação. Se a criança negra não for discriminada na segunda-feira, ela pode ser discriminada na terça ou na quarta. Se não foi no jogo de futebol, pode ser em uma entrevista de emprego. Se a jovem nunca foi assediada por um primo ou por um tio, ela ainda pode ser assediada no ônibus ou no metrô.

Para as minorias, nenhuma prática discriminatória é um caso isolado. Ao ser chamada de “gostosa” pelo chefe, aquela jovem que se tornou adulta recebe, mais uma vez, todo o peso da discriminação que sofreu durante toda a sua vida. Ao ser chamado de “macaco”, aquela criança que se tornou um grande jogador de futebol sofre, novamente, toda a carga de humilhação a que sempre esteve exposta.

A discriminação contra as minorias, ao contrário das demais discriminações, é recorrente e generalizada. Pode ocorrer em todo o território nacional, nos mais variados espaços públicos e privados. Assim, se voltarmos à fala daquela mulher no elevador, podemos concluir que ela não compreendeu o que é discriminação contra as minorias, apesar de ser mulher. Preferiu pressupor que todas as discriminações são iguais, provavelmente para não reconhecer que ela, enquanto mulher, também é discriminada.

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