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O espelho maldito

O presente ideal para um narcisista é o espelho. O reflexo na superfície plana é motivo de júbilo e contentamento para aquele que se apaixonou pela própria imagem. Esse afeto é tão excessivo que qualquer ranhura ou ferida que sinalize os efeitos provocados pelo tempo no corpo real devem ser ignorados, pois carregam a dolorosa verdade da vida: nossa autoimagem não resiste ao tempo.

O espelho, no entanto, pode se tornar uma brincadeira de mal gosto, uma afronta ou uma maldição para o avesso do narcisismo. Para essa pessoa, a imagem refletida no espelho está absolutamente longe de emitir uma luz própria, de brilhar divinamente no espaço. Não é uma percepção mais realista de si mesmo, pois as marcas infringidas no corpo não são entendidas como efeitos do tempo, e sim como sinais de uma maldição imprecada desde sempre.

Para o avesso do narcisista, resta uma única compensação: realizar grandes sacrifícios, como meio de encontrar motivos para se valorizar, ou projetar a imagem ideal no outro. Pouco importa se o outro é realmente superior. A fantasia criada por aquele que é o avesso do narcisismo está sustentada em uma convicção que não está fundada em um diagnóstico da realidade. A idealização da imagem do outro está baseada principalmente na inferiorização da própria imagem.

O leitor mais atento já deve ter associado a noção do avesso do narcisismo ao complexo de inferioridade. Se extrapolarmos o complexo de inferioridade do domínio psicológico para o domínio sociológico, facilmente chegaremos ao complexo de vira-lata, cunhado por Nelson Rodrigues. Segundo o escritor, “O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontrarmos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.

Nelson Rodrigues não foi o primeiro a estudar o complexo de inferioridade do povo brasileiro. Na passagem do século XIX para o século XX, estudiosos buscavam explicar a suposta inferioridade do país recorrendo ao determinismo geográfico ou ao darwinismo social. As altas temperaturas do território brasileiro, decorrentes de sua localização em área tropical, impediriam o desenvolvimento intelectual e moral de seu povo. Por esse motivo, a economia e a cultural do Brasil estariam fadadas ao fracasso. O segundo argumento recorria à formação étnica do povo brasileiro para explicar seu suposto atraso. A forte presença de indígenas e, principalmente, negros na composição étnica do Brasil era considerado um obstáculo para o país ser finalmente promovido ao mesmo status de um país europeu.

Toda pessoa minimamente escolarizada sabe que o determinismo geográfico e o darwinismo social foram criticados e superados. Também sabe que não faz mais sentido abordar o progresso material e cultural de um país como sinônimo de superioridade – não nos esqueçamos que foi justamente a Alemanha de Beethoven e Hegel que promoveu o holocausto judaico.

Apesar dessas considerações, resta, ainda, uma importante pergunta a ser respondida: a quem interessa disseminar o complexo de inferioridade em uma sociedade? A resposta, a meu ver, pode ser dita em uma única frase: o complexo de inferioridade interessa à elite. Os motivos não são difíceis de serem entendidos. O complexo de inferioridade leva a crer que, sejam quais forem os esforços políticos e culturais, a sociedade brasileira é incapaz de se desenvolver. Consequentemente, é incapaz de se transformar. Ora, se a sociedade brasileira é incapaz de se transformar, se está fadada ao fracasso, então não importam os esforços políticos e culturais para diminuir a desigualdade social, para promover a universalização da escolarização e para desenvolver a produção cultural. Sempre haverá uma elite detentora da riqueza e assim deve permanecer. Essa estrutura deve ser mantida, pois não pode ser modificada. Esses são os efeitos perniciosos do complexo de inferioridade no Brasil.

Quero destacar que o complexo de vira-lata, embora beneficie somente à elite, pode ser reproduzido por todas as classes sociais, inclusive por aquelas que não se beneficiam com esse discurso. Assim, apesar de dormir 4 horas por dia e de trabalhar mais de 44 horas por semana com um salário mínimo, o operário que sustenta o complexo de vira-lata contribui para que sua situação permaneça miserável e para que os administradores de sua fábrica continuem concentrando a riqueza produzida. Ao dizer que todo brasileiro é preguiçoso e vagabundo, esse operário extremamente explorado não consegue transformar sua própria condição. Enquanto isso, os administradores daquela fábrica, apesar de também reclamarem do brasileiro, não vão deixar de explorar aquele operário.

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