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O difícil fardo do civilizador

Durante o imperialismo europeu, particularmente na passagem do século XIX para o século XX, surgiram diversas explicações para justificar o domínio sobre as sociedades africanas e asiáticas. A principal e a mais interessante era aquela que, se pudesse ser intitulada, seria chamada de o “fardo do homem branco”, utilizada mais especialmente quando estavam se referindo às sociedades dos negros africanos. A expressão “fardo do homem branco” indicava a diferença hierárquica ou  a desigualdade entre a cultura do branco europeu e as culturas dos negros africanos, ao mesmo tempo em que responsabilizava o próprio branco europeu pela tarefa de civilizar os negros africanos.

A palavra “fardo”, ao contrário de apontar o sacrifício enfrentado pelo branco europeu, apenas escamoteava a vontade de domínio e de negação do outro ou de uma cultura diferente. Essa vontade aparentava um sentido de abnegação e doação, de desprendimento e desinteresse, quando, na verdade, ela era clara e intensamente intencionada e interessada, baseada na satisfação dos interesses particulares das sociedades imperialistas europeias. O único compromisso do colonialismo europeu foi com o enriquecimento das nações europeias e com a preservação da ordem social interna.

Hoje, o imperialismo europeu e seu discurso ideológico de civilização das sociedades africanas é severamente condenado, pelo menos pelos discursos politicamente corretos. Nenhuma nação acredita mais que é responsável por uma suposta tarefa civilizatória do continente africano – mesmo porque a África já não desperta mais nenhum interesse econômico relevante na Europa ou nos Estados Unidos. Contudo, a ideologia do “fardo do homem branco”, que declara existirem sociedades culturalmente inferiores e que se encontram em um estágio civilizatório primário, tornou-se um espectro que ameaça se materializar a qualquer instante. Não estou falando da Europa, dos Estados Unidos ou da África. Estou falando do Brasil. Isso mesmo: do Brasil.

Vamos recuperar alguns acontecimentos que marcaram as eleições para presidente de 2010 e de 2014. As redes sociais foram inundadas de comentários xenófobos e discriminatórios, que “culpavam” os eleitores dos estados do Nordeste pela eleição da Dilma (2010) e pelo avanço da Dilma em direção à reeleição (2014). Em linhas gerais, de acordo com esses comentários, a Dilma, enquanto candidata do PT, continua disputando as eleições para presidente porque recebe muitos votos dos nordestinos, considerados “desinformados” e “interesseiros” no Bolsa Família. Ou seja: se os eleitores do Nordeste fossem escolarizados e não passassem fome, eles não votariam nem na Dilma nem no PT.

De que modo o “fardo do homem branco” pode nos ajudar a entender a conjuntura política do Brasil? Considero que todos os comentários xenófobos e discriminatórios publicados na internet durante essas duas eleições são fruto ou estão embasados nessa ideologia. Os ataques endereçados aos eleitores dos estados do Nordeste supunham uma clara oposição entre um Brasil “civilizado” e “moderno”, que seria necessariamente antipetista, e um Brasil “selvagem” e “atrasado”, declaradamente petista.

Não precisamos de mais nenhum ingrediente para percebermos que a ideologia do “fardo do homem branco” cruzou o Atlântico e se instalou em nosso país. O eleitor que elaborou os comentários xenófobos e discriminatórios sentiu-se penalizado pelo peso e importância que os votos dos eleitores do Nordeste ainda ocupam no cenário político brasileiro. Esse eleitor sentiu-se profundamente irritado e ressentido porque acredita que o seu fardo, que é o fardo do homem escolarizado e que não passa fome, é ter que sustentar cidadãos pobres e pouco escolarizados. O fardo desse eleitor é acreditar que tem que pagar pelo atraso civilizatório dos outros.

O leitor mais atento já deve ter percebido as diferenças entre o “fardo do homem branco” do imperialismo europeu e o “fardo do homem branco” das eleições no Brasil. As sociedades europeias colonialistas precisavam justificar o domínio político e a exploração econômica que exerciam sobre as sociedades africanas. E o eleitor brasileiro que teceu e tece os comentários injuriosos contra os eleitores do Nordeste, precisa justificar o quê? Esse eleitor não aceita sua derrota e, por esse motivo, quer se vingar da vitória do outro. Esse eleitor é movido pelo ressentimento da derrota, pelo ressentimento da perda de privilégios. Sua vingança não é a transformação do outro, não é tornar o cidadão do Nordeste igual ao cidadão de qualquer outra região do país. Sua vingança é a anulação pura e simples do outro e está movida pelo pânico que se manifesta na seguinte frase: “Não estamos sós!”

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