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Sobre o feminismo

Não vou tratar do feminismo.

Contradição, visto que o título que encabeça o texto contradiz seu conteúdo? Ironia, já que o texto realiza exatamente o contrário daquilo que é esperado pelo título? Piada de mau gosto, pois o texto utiliza incoerências e vícios de linguagem para chamar atenção para si mesmo?

Um pouco dos três. A contradição não visa paralisar ou interromper o discurso. Ao negar o que próprio título diz, pretendo forçar a criação de um (novo) espaço de debate, que passa pelo feminismo, mas não permanece nem no feminismo nem nas mulheres. A ironia ocorre às avessas. Apesar de contribuir fundamentalmente para a criação desse espaço de debate, o feminismo permanece do lado de fora. O texto também não deixa de ser uma piada de mau gosto, mas somente para alguns setores da sociedade. Veremos o motivo mais adiante.

O feminismo é, ao mesmo tempo, uma análise crítica da condição opressiva da mulher e um discurso de fortalecimento ou, mais precisamente, de empoderamento da mulher. Com base no diagnóstico das práticas históricas e sociais que determinaram e determinam essa condição opressiva, o feminismo elabora discursos e mobiliza práticas que podem conduzir a uma ampliação e efetivação dos direitos da mulher.

O feminismo, no entanto, não é um discurso que aborda isoladamente a condição opressiva de determinado grupo social. Ao tratar das mulheres, o feminismo também analisa um dos termos da relação de gênero: o feminino. Já que o feminino se opõe a um outro polo da relação (conhecido como masculino), é impossível abordar o discurso feminista sem abordar, mesmo que indiretamente, o discurso sobre o masculino ou sobre o que é ser homem. A condição opressiva do gênero feminino, portanto, só pode ser compreendida em sua relação com a condição opressora do gênero masculino.

O feminismo, por fim, também pode ser um discurso que explora novas formas de existência da mulher. Não se trata apenas de expor a condição opressiva da mulher e de buscar seu empoderamento ou de encontrar as causas dessa condição na oposição entre homem e mulher, entre masculino e feminino, termos da relação de gênero. Nesse sentido, o masculino e o feminino não seriam definidos como polos positivo e negativo (ou vice-versa) da relação de gênero. Trata-se de interpretar o feminino em sua singularidade, mais como diferença em relação ao masculino do que como oposição. A pergunta “o que oprime uma mulher” cederia espaço para a pergunta “o que é ser uma mulher”.

Entender o discurso feminista em sua singularidade nos permite entendermos o masculino em sua singularidade. Liberado da oposição, cuja situação é estabelecida pela relação de gênero, o homem não precisaria ser pensado como aquele que se opõe à mulher, e sim como aquele que se diferencia dela. Fora dos dualismos opressor/oprimido e masculino/feminino, o masculino encontra condições de também ele elaborar novas formas de existência, novas singularidades.

O leitor mais atento já deve ter percebido que ainda estamos falando sobre feminismo, mas não estamos falando das mulheres. Estaríamos, então, falando do homem feminista? Essa expressão abre espaço para o surgimento de várias questões. Quais são as alternativas a um homem que reconhece a força e a importância do feminismo? Resta a esse homem somente abdicar da tradicional posição opressiva assumida pelo gênero ao qual ele pertence? Nesse caso, o homem que reconhece o discurso feminista deve se restringir a, pura e simplesmente, voltar contra sua própria condição toda a crítica formulada pelo discurso feminista, fazendo-o lamentar o fato de ser homem?

Que absurdo! Aceitar que a única resposta que o homem pode dar ao feminismo seja a desvalorização de sua própria condição masculina, ou de sua masculinidade, é um absurdo. Mas acreditar que a posição social do homem não deva ser questionada também é um absurdo. O que resta, então, ao homem que se simpatiza com o feminismo? Dizer às mulheres o que e como deve ser o feminismo? Assumir o protagonismo no feminismo?

Se alguém se animou com essas últimas perguntas, pensando que a resposta é, evidentemente, positiva, é porque não entendeu a que veio esse texto. O homem que reconhece a importância do discurso feminista precisa, urgentemente, pensar quais novas alternativas estão abertas para si mesmo. Não é mais suficiente dizer: “apoio a causa feminista”, “não ao machismo”. É preciso apresentar uma resposta interessante e notável à seguinte pergunta: existe outra forma de ser homem?

Pronto! Tocamos em uma questão fundamental para o masculino. Tradicionalmente, o homem que procura outras formas de agir e de sentir é considerado alguém que não assume plenamente sua condição de homem, ou seja, é um frouxo. Entretanto, essa não é a única resposta possível. É preciso que os homens sejam capazes de elaborar novos discursos sobre si mesmos e que não sejam a mera negação do machismo. É preciso que sejam elaboradas análises críticas sobre a tradicional posição do homem, mas que não se restrinjam ao ressentimento histórico de um grupo que não alimenta mais uma posição opressiva. É preciso que surjam novos pontos de vista sobre o masculino, apresentando sua singularidade e diferença.

Para ser mais didático e simplificador, vou apresentar alguns exemplos muito fáceis de entender. O homem que não assume a posição de provedor em sua casa não precisa, necessariamente, ser considerado um encostado, um vagabundo. Esse homem pode assumir uma posição de compartilhamento, tanto nas questões financeiras como nas questões domésticas. O homem que abandona suas recorrentes visitas ao puteiro com os amigos não precisa ser um homem moralista, mas pode ser um homem que reuniu, em uma mesma mulher, a companheira e a parceira sexual. Além disso, o homem não pensa tanto em sexo como diz pensar. Já imaginou que libertação se um homem pudesse pensar em sexo somente quando sente desejo de pensar ou fazer? Não nos enganemos: sentir-se obrigado a sempre falar em sexo não é prazer, é dever.

Eu poderia listar uma série de outras alternativas ao homem. Há infinitas possibilidades. Perante o feminismo, não há necessidade de o homem se rebaixar a uma condição menor. É importante que nós sejamos capazes de elaborar outras maneiras de sermos homens. Nossa tarefa não é somente apoiar a causa feminista, e sim assumirmos novas formas de existir enquanto homens.

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