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Generais, rainhas e vidas passadas

Percorrendo os corredores de um museu, podemos ouvir o solilóquio de dois visitantes comuns. “Será que o retrato dessa rainha não é o espelho de minha alma?”, se perguntou uma mulher. “Certamente os moldes de meu inconsciente serviram de modelo à escultura desse general”, afirmou, consigo mesmo, um homem.

Em uma época de espiritualidade exacerbada e de expectativas desmedidas, perguntas e conjecturas desse teor nos causam cada vez menos estranheza. Não são poucas as pessoas que dizem ter sido reis, rainhas, generais, sábios, grandes guerreiros e poderosos sacerdotes. Sempre foram pessoas famosas, grandes personagens da História, nunca camponeses anônimos, prostitutas oprimidas, andarilhos bêbados, enfim, pessoas que não deixaram nenhum vestígio de sua existência.

A teoria de que todo mundo foi famoso em sua vida passada não se sustenta por um motivo muito simples. Não houve tantos reis, generais ou sábios na História. Havia mais pessoas desconhecidas e anônimas do que pessoas reconhecidas e famosas. Se todo mundo foi faraó, quem foi que ergueu as pirâmides? Em um reino de filósofos, quem cultivava o alimento? Com tantos generais em batalha, como era possível elaborar uma infantaria? Eu poderia formular infinitas outras questões a respeito dessa teoria e todas elas revelariam sua insustentabilidade.

Não estou interessado em discutir a legitimidade ou não de doutrinas que afirmam a existência de vidas passadas, mas a importância que muitos atribuem ao seu passado, pressupondo que esse passado existe, é um sintoma interessante de nossa época e pode ser uma via de entrada para compreender nossa atual condição. Por esse motivo, podemos fazer uma análise diferente dessa teoria (de que todo mundo foi famoso em sua vida passada). Ao invés de criticar seus argumentos, podemos compreender o seu significado.

A abordagem mais compreensiva e menos crítica dessa teoria nos leva à seguinte pergunta: qual é o sentido de se atribuir um passado glorioso? Uma interpretação livre dos estudos sobre contos populares lançam uma luz interessante a essa questão. Em algumas histórias populares, que também podem ser aí incluídos os contos de fada, um personagem de condição nobre sofre uma queda, tornando-se anônimo e popular. A posição desse personagem encontra-se invertida, de cabeça para baixo. É somente em um momento posterior que o personagem é restituído à sua condição original. A história da Branca de Neve é um bom exemplo dessa queda, da posição invertida que se encontra e da posterior restauração de sua condição original.

Penso que, de modo geral, a alegada condição nobre ou gloriosa em vida passada sustentada por algumas pessoas, mesmo que em tom jocoso e satírico, expressa uma fantasia complexa e elaborada, que lembra muito alguns contos populares. A pessoa elabora uma fantasia de um passado nobre e glorioso, em oposição ao presente medíocre e sem valor. Elenca aquele passado como sua verdadeira natureza, justamente para negar a legitimidade de sua atual condição. Desse modo, a condição atual é apresentada como subtração, como diminuição, como perda de uma condição verdadeira que se encontra no passado. O que resta a essa pessoa que se vê distante de sua verdadeira natureza? A expectativa da restituição daquele passado glorioso em um futuro distante.

A elaboração de uma fantasia de um passado glorioso é uma resposta ao presente medíocre que a pessoa acredita viver. A mulher que não é ouvida pelo marido, o funcionário subserviente, o jovem incapaz de se arriscar a conversar com uma garota, a gerente que nunca é reconhecida pelo seu trabalho. Seja qual for a situação em que se encontra, a pessoa elabora uma fantasia para não ter que reconhecer que a sua vida é a sua vida e que não há um destino sobrenatural que determine suas experiências, desde as mais sublimes até as mais infames.

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