Início » Política » Assistencialismo e política assistencial

Assistencialismo e política assistencial

O catolicismo foi capaz de disseminar na cultura brasileira uma prática que se tornou patrimônio nacional: o assistencialismo. Doações periódicas a instituições de caridade, sopa aos desabrigados, visitas sistemáticas a hospitais, orfanatos e penitenciárias, cestas básicas mensais e natalinas entregues a famílias carentes. Católicos, espíritas, pentecostais, neopentecostais, umbandistas, ateus e agnósticos conseguem esquecer suas diferenças e se entregar ao trabalho ao próximo. Em nosso país, o assistencialismo não é prerrogativa de nenhuma doutrina ou instituição. Por esse motivo, é propriedade de todos.

A cultura do assistencialismo não se disseminou gratuitamente no Brasil. Era preciso que houvesse uma compensação ou uma contrapartida forte para convencer alguém a se dedicar ao trabalho assistencial. Não nos enganemos: se não houvesse um ganho, o assistencialismo jamais teria se enraizado com tanta profundidade em nosso país. As motivações podem ser as mais variadas, mas podemos elencar pelo menos uma que atravessa a maioria das motivações: a sensação do dever cumprido. Dever com Deus, dever com o carma, dever com a sociedade, dever com a moral, dever. É em busca dessa satisfação que o assistencialismo se tornou um sucesso.

O assistencialismo, no entanto, possui um cruel inimigo: a política assistencial. Quando o Estado assume para si a obrigação e o dever de promover a redução da pobreza, a inclusão digital ou a diminuição das taxas de analfabetismo, o assistencialismo perde sua importância e valor. Servir um prato de sopa deixa de ser uma atitude santificada, já que o Estado cria restaurantes populares, promove a distribuição de renda e a entrega de alimentos. Com o surgimento e a expansão da política assistencial, o assistencialismo perde sua razão de ser. A sensação de dever cumprido fazia sentido quando ninguém mais se preocupava com os menos favorecidos. As políticas assistenciais fazem justamente o contrário.

Resta uma última questão: se o Estado assume para si a tarefa antes abraçada pelas igrejas e pelas ONGs, por que o ódio voltado contra as políticas assistenciais? A resposta não devia ser justamente o inverso, ou seja, o contentamento pelo fato de o Estado se responsabilizar por uma atitude tão nobre como a redução da pobreza? O problema é que muitos daqueles que praticavam o assistencialismo perderam sua oportunidade de se sentirem úteis, de gozarem da sensação do dever cumprido. E essa perda parece irreparável. O vazio de suas existências deixou de ser preenchido.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: