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A informalidade do telejornal

Há alguns anos, a seriedade e a formalidade de Cid Moreira e Sérgio Chapelin marcaram a imprensa televisiva no Jornal Nacional. Os dois jornalistas eram capazes de transitar entre matérias de diferentes conteúdos sem manifestar qualquer alteração ou afetação no timbre da voz e na gestualidade corporal. Para garantir a formalidade, o improviso era interditado. Os jornalistas estavam submetidos a pautas e textos previamente redigidos e elaborados, impedindo não apenas a expressão de opiniões e comentários pessoais e subjetivos, mas também de abordagens jocosas e irreverentes.

Saudades daqueles tempos idos? De forma alguma. Sabemos que a seriedade e a formalidade daquele Jornal Nacional não resultavam em imparcialidade. Para se tornarem matérias jornalísticas, os eventos são abordados de um ponto de vista particular, que enfatiza determinados aspectos em detrimento de outros, que escolhe as palavras mais adequadas e coerentes com essa perspectiva. Quando o evento se transforma em matéria jornalística, um conjunto de escolhas e recortes, definidos por um filtro conscientemente determinado pelo editor-chefe, foi posto em ação.

Apesar das críticas de sua pretensa imparcialidade, a seriedade e a formalidade dos telejornais garantiam uma referência mínima, que estabelecia a diferença entre o senso comum e a imprensa. O que temos visto hoje é a subversão daquele modelo adotado durante tantos anos pela imprensa televisiva. A maioria dos telejornais da maioria dos canais televisivos vem assumindo um tom descontraído e informal, aproximando-se das conversas descomprometidas do dia a dia. É permitido e mesmo incentivado que os apresentadores emitam opiniões pessoais improvisadas, sem qualquer elaboração reflexiva, ou que adotem um tom jocoso e irônico.

O resultado é patético. Apresentadores fazem avaliações simplórias de políticas públicas e de manifestações sociais. Jornalistas emitem opiniões que contrariam a própria reportagem que acabaram de apresentar, induzindo a uma interpretação que ignora aquilo mesmo que foi dito. Por fim, a fronteira entre a imprensa e a conversa informal é diminuída, reduzindo também a importância daquele filtro fundamental que transforma o impulso cego e caprichoso em uma opinião que pode ser compartilhada entre seus iguais. Ao invés de deixar clara sua posição política ou sua visão de mundo, a grande imprensa televisiva vem se mostrando cada vez mais descartável, pois vem abandonando sua função de divulgação e tradução das informações para assumir uma função de legitimação dos caprichos mais infantis do ser humano.

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2 Comentários

  1. cadê rogê disse:

    Ser imparcial no jornalismo é tão absurdo quanto o ser na vida real. Viver é fazer escolhas, se posicionar frente a uma condição ou conceito.
    É como a relação entre liberdade e autonomia.
    Nós, seres humanos, somos autônomos se considerarmos as condições físicas que nos condicionam, como o meio ambiente.

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