Início » Diagnósticos » Choque de civilizações

Choque de civilizações

O atentado de dois terroristas islâmicos ao jornal francês Charlie Hebdo, resultando na morte de doze funcionários, realimentou o debate a respeito de terrorismo islâmico, liberdade de expressão e conflito religioso. Rapidamente, milhões de franceses saíram às ruas em solidariedade às vítimas do atentado e em defesa da liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, temendo uma contra-ofensiva islamofóbica de proporções jamais imaginadas, mobilizada pelos setores sociais mais reacionários, declarações políticas e textos jornalísticos esforçaram-se para estabelecer a distinção entre o terrorismo religioso de tendência islâmica e a própria religião islâmica.

Causa certo estranhamento o esforço da mídia e dos estadistas europeus em estabelecer a distinção entre o terrorismo e a religião islâmica, pois os próprios autores do atentado deixaram claro seu vínculo com o islamismo ao dizerem agir em nome de Alá. Por que, então, desvinculá-los da fé que eles mesmos professaram? Tomemos um exemplo parecido. Houve algum esforço da mídia e de estadistas em desvincular os padres acusados de pedofilia da própria Igreja Católica? Em algum momento foi dito: “pedofilia é uma coisa, catolicismo é outra coisa”? Não. A acusação contra os padres pedófilos também foi, em certa medida, uma acusação contra a Igreja Católica. Novamente: por que, então, a atitude tomada em relação ao atentado não foi a mesma?

Por um lado, podemos dizer que os europeus estão tremendo de medo de novos atentados terroristas. Não tomariam o atentado ao jornal Charlie Hebdo como um evento isolado, e sim como um elo de uma longa corrente. Desvincular o atentado islâmico da religião islâmica seria um modo de evitar que novas tragédias fossem efetivadas. Por outro lado, no entanto, o cuidadoso discurso midiático sobre o islamismo pode ser apenas o conteúdo manifesto, e não o conteúdo latente e pulsante, da realidade europeia. A condição dos imigrantes árabes islâmicos e seus descendentes na Europa é sofrível e precária. O projeto de integração desses imigrantes ou descendentes de imigrantes (se é que há algum projeto) tem sido um fracasso. A Europa sabe disso e faz pouco para alterar essa situação. Por esse motivo, sabendo que está sentada em um barril de pólvora, a melhor alternativa é atenuar.

A mídia e os estadistas europeus sabem que a islamofobia é recorrente. O esforço para estabelecer a distinção entre o terrorismo e a religião islâmica é apenas o efeito de um recalcamento de uma vontade europeia coletiva de se desfazer de todo e qualquer vestígio da cultura islâmica. O recalcamento dessa vontade é provocado justamente pelos valores éticos e políticos universais sustentados pela comunidade europeia há pelo menos dois séculos. Apesar do generalizado desprezo por tudo aquilo que não seja reconhecido como ocidental, os europeus não podem arriscar seu projeto civilizatório.

E aí chegamos em um ponto delicado. A integração dos imigrantes árabes islâmicos e seus descendentes pela comunidade europeia nunca vai ocorrer plenamente. Ao contrário do que se afirma correntemente, não estamos diante de um conflito religioso, e sim de um conflito civilizacional. O islamismo não é apenas uma religião, e sim uma cultura e, em última análise, uma civilização. De um lado, uma civilização que se ergueu com base em um paradoxal cristianismo laico, em regimes democráticos parlamentares. De outro lado, uma civilização capaz de conviver com regimes teocráticos e que não abre mão de determinados valores coletivos. Volto a dizer: estamos nos deparando com um conflito de civilizações. A única maneira de superar esse impasse não é nem a assimilação do islamismo pela civilização ocidental nem a superação da civilização ocidental pela civilização islâmica, e sim pensar em uma outra civilização, distinta tanto da civilização ocidental europeia como da civilização forjada sob o signo do islamismo.

Anúncios

2 Comentários

  1. Wagner disse:

    Mais ou menos como refletiu um cientista político no fim dos anos 90, início dos 2000, mas que caiu em descrédito à medida em que a onda da globalização avançou para América Latina e Ásia. Em certa medida, talvez devêssemos relê-lo…
    O Choque de Civilizações. Samuel P. Huntington

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: