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O desmembramento da voz da esquerda

Desde o século XIX, a esquerda assumiu a prerrogativa de falar em nome de todo oprimido. Localizada de um patamar superior e privilegiado, considerava-se que a perspectiva esquerdista era capaz de diagnosticar os obstáculos que impediam a emancipação dos grupos oprimidos e de elaborar o projeto utópico de uma sociedade mais justa e mais igualitária. Em nome da emancipação de toda e qualquer opressão, a esquerda havia reduzido as lutas e as histórias singulares dos grupos oprimidos a um projeto universalista e universalizante.

Depois da II Guerra Mundial, principalmente a partir da década de 1970, observamos que, apesar de parte dos intelectuais de esquerda ainda falar em nome de todo e qualquer oprimido, diferentes grupos sociais, como as mulheres, os negros e os homossexuais, cansados de esperar que a esquerda tradicional atendesse seus interesses mais imediatos, conquistaram as vias públicas e se fizeram ouvir pelo restante da sociedade. As mulheres não precisavam esperar que os homens falassem em nome do feminismo, os negros não precisavam esperar que os brancos falassem em nome do movimento negro, e os homossexuais não precisavam esperar que os heterossexuais falassem em nome do movimento gay.

A esquerda se especializou, o que permitiu que a crítica e a luta pelos direitos sofressem uma enorme aceleração. O feminismo tornou-se tão refinado que um ativista homossexual pode desconhecer suas críticas mais atuais. O movimento negro avançou a tal ponto que as mulheres podem não compreender a singularidade da voz de uma mulher negra. O movimento pelos direitos do transgênero pode ainda não ser reconhecido por um homossexual. O que encontramos é um processo acelerado de conquista de autonomia de movimentos singulares.

A especialização e a aceleração da crítica, entretanto, têm suas armadilhas. Como hoje nenhum grupo oprimido pode falar em nome de outro grupo oprimido, corremos o risco de não nos compreendermos. É preciso, portanto, acima de tudo, ouvir. O único modo de não perpetuarmos a desigualdade que ainda impera em nossa sociedade é ouvir a voz do oprimido, mesmo que nós também sejamos oprimidos. Somos limitados e nossa voz não é universal. Nossa voz pode falar apenas em nosso nome, nunca em nome do outro.

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