Início » Diagnósticos » Crise da representatividade política

Crise da representatividade política

As manifestações de 15 de março reuniram milhares de pessoas em diversas cidades brasileiras. Motivados por um sentimento de insatisfação política difusa, os manifestantes reivindicavam diferentes causas e bandeiras: impeachment da presidenta Dilma, intervenção militar, intervenção alienígena, fim da corrupção, neonazismo.

A meu ver, havia três reações possíveis perante essas manifestações: euforia, melancolia e diagnóstico, seja o diagnóstico trágico, seja o diagnóstico cômico. Era e é possível que haja pessoas que passaram por mais de um desses afetos. Ontem, estive em alguns momentos em um estado de melancolia. Hoje, encontro-me na fase do diagnóstico trágico. O qualificativo trágico não diz respeito a uma avaliação apocalíptica da situação atual, e sim a uma avaliação que pode não encontrar garantia nenhuma de estar correta.

Para traçar esse diagnóstico, começo dizendo que o impeachment da presidenta Dilma não fará diferença alguma, não porque eu seja ou não seja petista, e sim porque penso que vivemos a expressão de um problema estrutural na política brasileira. Desde junho de 2013, tivemos a certeza de uma coisa: não nos vemos representados politicamente. As respostas dos governos do PT (municipal e federal) e do PSDB (estadual) às manifestações foram sofríveis e medíocres. Apesar de a tarifa do transporte público não ter sido reajustada naquele ano, os governos absorveram muito pouco das reivindicações das ruas.

A dificuldade em nos vermos representados na política brasileira também se manifesta muito fortemente no chamado estelionato eleitoral. Durante as campanhas eleitorais do ano passado, em nenhum momento o governador Geraldo Alckmin admitiu que o estado de São Paulo atravessava uma crise hídrica. Ao mesmo tempo, a presidenta Dilma Rousseff garantiu investimentos na educação e uma política econômica que não comprometeria os direitos trabalhistas adquiridos. Não preciso dizer que nenhuma das declarações desses dois políticos se cumpriu.

O não cumprimento das promessas de campanha provoca um mal-estar e uma desconfiança em relação à representatividade. O eleitor, que pretende se ver representado pelo seu candidato, percebe que o programa político raramente é levado adiante. A crise de representatividade na política brasileira, entretanto, está enraizada em outras práticas. Vejamos outros casos.

Dilma vem sendo duramente criticada por sua inabilidade em criar alianças e manter aliados. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, ambos do PMDB, partido da base aliada do governo, vêm se transformando em adversários de fato ao deixarem muito claro suas insatisfações com os rumos tomados pela presidenta Dilma.

A inabilidade política de Dilma vem comprometendo, segundo diversos analistas, a própria governabilidade. Apesar de a base aliada ocupar a maioria das cadeiras do Congresso, Dilma tem encontrado dificuldades para implantar e por em funcionamento o próprio programa político de seu governo. Se a governabilidade permanecer do modo como se encontra, os próximos quatro anos serão marcados pelo imobilismo e pelo engessamento.

Em uma democracia, as alianças políticas são fundamentais para compor forças e fazer valer interesses mais próximos dos interesses gerais de um país. No entanto, ultimamente as alianças políticas vem se mostrando menos em uma composição de forças e mais em uma solução de compromisso. A composição de forças deve ocorrer entre ideologias partidárias próximas, vizinhas. Caso contrário, ocorre a chamada solução de compromisso, em que se sacrifica parte substancial de seu programa político-partidário para poder encontrar espaço no cenário político. Atualmente, o partido que vem exercendo a função de parceiro nessa solução de compromisso é o PMDB. Já fez isso durante o governo do PSDB, faz isso durante o governo do PT.

A habilidade do governante em criar e manter alianças é um poderoso motor da governabilidade. Contudo, toda aliança tem limite, e o limite de uma aliança é o comprometimento do programa de governo.

O cumprimento do programa de governo também pode se ver prejudicado por outro fator: financiamento de campanha. Os principais financiadores das campanhas eleitorais do PT também são os principais financiadores das campanhas eleitorais do PSDB. As grandes construtoras, muitas delas envolvidas nas investigações da Lava-Jato, doaram enormes quantias de dinheiro para ambos os partidos. O objetivo é claro: não importa o partido ou o candidato eleito, pois as grandes empresas financiadoras de campanha sempre vencem.

Toda aliança implica compromisso. No caso desses dois grandes partidos políticos, quem será o principal beneficiário da vitória nas eleições? Certamente, não serão os cidadãos, e sim essas grandes empresas. Como é possível, portanto, esperar que um candidato eleito principalmente com as contribuições de grandes empresas seja capaz de cumprir com seu programa de governo anunciado durante as campanhas eleitorais? O chamado estelionato eleitoral é praticamente inevitável.

Penso, portanto, que uma interpretação possível da crise política que estamos enfrentando diz respeito a uma crise de representatividade, ou seja, a sociedade civil não se vê representada pelos seus representantes. Não é um problema de partido, é uma questão de reforma política, que defina novos parâmetros para o financiamento de campanha, para a participação política do cidadão fora do período eleitoral e mesmo para a própria dinâmica do voto.

Não nos enganemos. Se a peça é a mesma, alterar os atores fará pouca diferença. Nenhum outro partido será capaz de alterar as relações entre governantes e governados, entre representantes e representados, a não ser que seja efetivada uma verdadeira, profunda e radical reforma política. Do contrário, continuaremos sendo levados por um redemoinho sem fim.

Para quem interessar, sugiro a entrevista do filósofo Vladimir Safatle: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/03/15/a-nova-republica-acabou-diz-filosofo-vladimir-safatle.htm

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: