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A meia verdade sobre a qualificação para o trabalho

O baixo rendimento de seus funcionários é uma das principais queixas da classe empresarial. Os empresários dizem que a razão para o baixo aproveitamento da produtividade no Brasil reside na baixa qualificação de seus colaboradores. Haveria, portanto, uma relação proporcional entre produtividade e qualificação.

Ao estabelecer essa associação, os empresários criam condições para responsabilizar o funcionário (desinteressado em desenvolver novas competências profissionais em cursos de formação) e o Estado (vontade política insuficiente para promover uma verdadeira reforma educacional). Por outro lado, os empresários também conseguem se eximir de quaisquer responsabilidades pelo baixo rendimento de seus funcionários. Disseminam a visão de um ambiente corporativo rico e ansioso por funcionários engajados, mas pouco aproveitado em virtude da baixa qualificação de seus empregados.

Estamos lidando com um discurso (empresarial) que exime de responsabilidade a própria classe profissional (empresários) que emite esse discurso. O discurso empresarial, portanto, é incapaz de realizar qualquer tipo de autocrítica e de reavaliação da responsabilidade da classe empresarial a respeito da baixa produtividade de seus funcionários. Não podemos esperar nada desse discurso. No entanto, como não somos empresários, nós temos condições de realizar uma avaliação crítica desse estado de coisas.

Enfrentemos uma questão simples: em qual época da História da humanidade a formação técnica do trabalhador assalariado precedeu o desenvolvimento técnico ou a inovação técnica no trabalho? Se avaliarmos as três fases da Revolução Industrial, por exemplo, vamos notar que primeiro a inovação técnica foi implantada na produção para somente depois os funcionários aprenderem seus procedimentos e se adaptarem a ela. Existem experiências em que os funcionários são qualificados ao mesmo tempo em que são implementadas inovações no processo produtivo. No entanto, a iniciativa dessas transformações partiu da classe empresarial, e não da classe produtiva.

Raciocinem comigo a respeito da terceira fase da Revolução Industrial. O que veio primeiro: os funcionários qualificados da Toyota ou o toyotismo? Os funcionários precisaram aprender procedimentos de um novo sistema de produção, mas esse sistema de produção já havia sido elaborado pela classe empresarial, mesmo que ainda não tivesse sido implantado. Imaginem a situação contrária: funcionários qualificados em uma empresa fordista. Alguém ainda acredita que seriam os funcionários qualificados que promoveriam a inovação técnica da empresa? Não sejamos ingênuos.

O discurso empresarial é incapaz de perceber que o funcionário qualificado não é o responsável por promover o desenvolvimento produtivo de uma empresa. É preciso que a empresa transforme seus métodos de gestão e planejamento para, somente depois ou mesmo simultaneamente, capacitar seus funcionários aos novos procedimentos da empresa ou buscar no mercado profissionais qualificados que possam responder a essas demandas. Situação completamente diferente e absurda é esperar que os funcionários promovam a mudança que cabe à empresa realizar. Dito de outro modo: por que o funcionário deve se qualificar se a própria empresa preserva procedimentos tradicionais de produção e serviço?

A reação mais comum desse funcionário será a frustração. E, se prestarmos atenção, essa situação tem sido mais recorrente do que imaginamos. Funcionários altamente qualificados trabalhando em empresas acintosamente tradicionais. Essa visão não é generalizada, mas não pode ser descartada nem minimizada. Ou as empresas transformam seus métodos produtivos ou caminharemos em direção para um grau cada vez mais elevado de desânimo e frustração.

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5 Comentários

  1. renatomalkov disse:

    Tenho a impressão de que isso também fecha um ciclo. O funcionário frustrado encontra no próprio consumo um consolo, afinal, é isso que é o tempo inteiro bombardeado. Seja a compra de um livro, um doce, um carro. “Trabalhei tanto naquele lugar, dediquei-me tanto, mas ninguém reconhece. Preparei-me tanto para um trabalho que não me motiva. Mereço ganhar algo.” Enfim… Tenho a impressão de que pessoas frustradas são mais lucrativas do que as satisfeitas. Não que a empresa faça tudo de caso pensado, mas mantendo a responsabilidade no Estado e no funcionário, principalmente, mantém-se a empresa no patamar do intangível, um ente transcendente que requer o melhor de todos. Se a empresa transcende, qual funcionário terá força de promover mudança? Se não há mudança, qual ser humano frustrado não vai procurar por algo que o satisfaça? Na condição em que vivemos, quem não será tragado para o consumo como solução? E aí, quem vai parar de trabalhar ou enfrentar esse ser transcendental se corre o risco de perder o emprego que sustenta sua pouca satisfação: o consumo? Enfim… é uma impressão.

    • Muito interessante, Renato! Minha proposta inicial era fazer uma crítica do discurso empresarial e do conservadorismo da classe empresarial, assim como dos efeitos perniciosos que aquele discurso provoca sobre o funcionário qualificado. No entanto, como você bem pontuou, a frustração do funcionário precisa ser compensada e dificilmente essa compensação ocorrerá no interior da empresa. Resta procurá-la fora da empresa, ou seja, no mercado, no consumo. Também não penso que esse ciclo, como você o chamou, seja planejado, mas é uma hipótese muito interessante. E aí resta uma nova questão: se a transformação da empresa não ocorre por iniciativa do funcionário, então o que resta a ele, senão compensar sua frustração pelo consumo ou se recusar a se submeter a esse ciclo, buscando alternativas profissionais menos rendosas, mas certamente mais satisfatórias?

  2. As empresas querem inovar somente no periférico, não querem investir e valorizar funcionários. Melhor ter vários apertadores de parafuso…

    • Concordo, Alê. Soma-se a isso o fato de a classe empresarial responsabilizar somente o funcionário pela baixa produtividade. Não é capaz de perceber que boa parcela da culpa reside no conservadorismo do empresários.

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