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Volta pra Cuba!

Não é novidade que a maioria dos movimentos de direita é motivada pelo ódio e pela agressividade. Apesar de reivindicarem o fim da corrupção e o restabelecimento da ordem institucional política do país, esses movimentos tendem a diminuir o espaço do debate e a ampliar o campo para o ataque e para a ofensa. Alguns dos insultos mais conhecidos são: “volta pra Cuba!”, “volta pra Venezuela!”, “volta pra Bolívia!”. Para bom entendedor, meia palavra basta. Todos esses insultos são voltados para aqueles brasileiros que sustentam posicionamentos políticos esquerdistas ou que simpatizam com tendências esquerdizantes.

As expressões “volta pra Cuba!”, “volta pra Venezuela!”, “volta pra Bolívia!” são insultos, mas não são qualquer tipo de insulto. Vamos comparar com outro tipo de xingamento. As expressões “vai tomar no cu!”, “filho da puta” e “vai se foder” são insultos, não importa o contexto em que foram pronunciadas. Mesmo quando ditas entre amigos bêbados e sorridentes, contexto que ameniza seu teor agressivo, essas expressões continuam sendo um insulto (é interessante notar, no entanto, a associação entre sexo e violência entre todos esses três xingamentos).

Outras expressões, ao contrário, transformam-se em insultos somente quando pronunciadas em contextos específicos. Dizer “volta pra Bolívia!” a um imigrante boliviano que trabalha em condições análogas à escravidão em uma confecção no Brasil pode ser uma tentativa de minorar o sofrimento desse ser humano. Apesar de o verbo ser conjugado no modo imperativo, retornar ao país em que nasceu pode ser a única alternativa contra as péssimas condições de vida em que o imigrante se encontra.

A expressão “volta pra Bolívia!”, entretanto, pode perder sua condição de reconhecimento do sofrimento do imigrante e de oferecimento de uma alternativa quando pronunciada ou vociferada a um brasileiro. O brasileiro não nasceu na Bolívia, e sim no Brasil. Ordenar que um brasileiro volte para a Bolívia, para a Venezuela ou para Cuba é um contrassenso, pois implica em não reconhecer o direito de cidadania àquele cidadão brasileiro e atribuir a ele uma suposta condição de imigrante, de estrangeiro.

Agora, pisamos em terreno pantanoso. Ao não reconhecer o direito de cidadania desse brasileiro e ao exigir que ele retorne a um lugar que não é o seu, a expressão ordena o exílio de um cidadão. Em seguida, justifica o exílio pelo fato de que esse suposto cidadão brasileiro é, na verdade, um estrangeiro. Por fim, esse suposto cidadão brasileiro é um estrangeiro não porque tenha nascido em outro país, e sim porque sustenta um conjunto de ideias ou comportamentos que se diferenciam das ideias e dos comportamentos daquele que fez o xingamento ou o insulto. Dito de outro modo: para aquele que insulta, tudo o que ele não reconhece como seu não é apenas diferente, é também estrangeiro e, portanto, deve ser discriminado, exilado, deve retornar ao seu local de origem.

A identificação entre as ideias e os comportamentos desse brasileiro com Cuba, Bolívia e Venezuela não é casual. Esses três países são associados por grande parte da direita brasileira ao comunismo e ao poder autoritário. O comunismo e as correntes esquerdistas, portanto, encontrariam sua origem e sua terra natal nesses três países, e não no Brasil. É preciso reconhecer, no entanto, que há ideias e correntes socialistas ou esquerdistas que são, sim, brasileiras; que foram, sim, elaboradas em território nacional. O Brasil conhece uma longa tradição de elaboração e reflexão a respeito do comunismo, do socialismo, do poder popular e das correntes políticas de esquerda. Nenhuma dessas ideologias é estrangeira em nosso país.

O debate político às vezes é acompanhado de insultos e injúrias. No entanto, quando o insulto torna-se a única voz e a única proposta, então o debate político minguou, morreu. Ao reagir contra seus adversários políticos com vitupérios como “volta pra Cuba!” e seus derivados, a direita declara abertamente sua incapacidade ou sua negação do debate político. E o que é a negação do debate político senão a morte da experiência democrática?

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1 Comentário

  1. renatomalkov disse:

    Li seu post e em seguida li esse aqui: http://blogdaboitempo.com.br/2015/05/25/a-palavra-perdida-contra-a-bala-perdida/ Acho que eles conversam um pouco.
    Acho bem válida a discussão do uso da palavra e do que a ofensa quer dizer. O que está perdido no discurso, conforme apontado no artigo que mencionei. É a escalada dos mal-entendidos e da violência. É o ‘coxinha’ vs ‘petralha’. Criam-se caixinhas para cada grupo, estabelece-se que não há possibilidade de troca entre os dois, eles que vão pra miami, eles que vão pra cuba… A única coisa que avança é a violência do “nós” contra “eles”. Não há espaço de convívio, sobra a ameaça do exílio.

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