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O crepúsculo do Estado brasileiro

A impiedosa perseguição política contra os camisas vermelhas e as manifestações que vêm ocorrendo em várias cidades brasileiras, reivindicando desde o impeachment da presidente Dilma até a intervenção militar, são o sintoma da baixa popularidade do governo. Como resposta, mobilizações de apoio são organizadas pelas centrais sindicais e pelos movimentos sociais.

Se o governo petista concluir seu mandato, o ressentimento dos oposicionistas crescerá em progressão geométrica, mas os governistas estarão convictos de terem cumprido seu dever e defendido a legalidade, acreditando assumir o papel de guardiões da lei e da democracia. Ao contrário, se o impeachment for efetivado, os então oposicionistas serão tomados por uma expectativa eufórica de radical transformação das instituições políticas brasileiras, enquanto os então governistas precisarão enfrentar o gosto amargo da derrota.

Nenhuma dessas duas alternativas, contudo, conseguirá interromper um processo em curso, que flui vagarosa e silenciosamente. Nem Dilma, nem Temer, nem Cunha, nem Aécio, nem Serra, nem FHC, nem Lula serão capazes de revertê-lo. Se nos posicionarmos de um ponto de vista mais distante dessa polaridade partidária, que estigmatiza e opõe dois espectros do cenário político brasileiro, reconheceremos faces melancólicas, gestos mecanizados, palavras sem vigor, sinais de um descontentamento tão profundo que, ao contrário de gerar o ímpeto pela mudança, já vem alcançando com grande desenvoltura o niilismo. A marca de nossa época é o niilismo político, conceito nietzscheano que expressa a decadência de nossos valores e nossos sistemas. Estarrecidos e resignados, estamos assistindo ao crepúsculo do Estado brasileiro.

Não sabemos se se trata do fim do Estado brasileiro ou do fim deste Estado brasileiro, cuja configuração se manteve a mesma desde o fim da ditadura militar e a reabertura democrática. Seja como for, não estamos enfrentando meras turbulências sociais e partidárias, não se trata de governar o Brasil de acordo com o neoliberalismo ou com políticas sociais e compensatórias. Entramos em um período de profunda crise de representatividade política. Seja quem for o governante, sua representatividade e sua legitimidade já estarão em crise.

A interpretação é pessimista, não porque eu seja pessimista, e sim porque o diagnóstico político de nosso país (ainda) não nos mostra uma alternativa verdadeiramente nova e estrutural. O Estado brasileiro está esgotado. Haverá muitos oportunistas, buscando angariar apoio das mais diferentes classes sociais e partidos políticos com promessas de transformação impossíveis de serem realizadas. Não é fácil prever a duração desse momento, mas fechar os olhos para suas razões estruturais e atribuí-lo a uma pequena disputa eleitoreira pode certamente prolongá-lo indefinidamente.

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