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A violência simbólica

Posicionar-se ao lado do poder: eis uma das principais estratégias para não ser esmagado por ele. Conhecer a força e o alcance de seu discurso é um primeiro passo que nos afasta de seu redemoinho sem fim.
Há uma violência tão funesta quanto a violência física promovida pelas forças de repressão: a violência simbólica. Na verdade, seria mais correto dizer que nenhuma violência física é exercida sem anunciar uma violência simbólica correlata.
A misoginia, o racismo, a homofobia, a xenofobia e toda forma de discriminação não implicam somente maus tratos, agressões corporais, assédios sexuais ou o extermínio propriamente dito de uma minoria. A discriminação também é constituída por uma determinada maneira de aprisionar essa minoria, mas que ocorre em uma esfera simbólica; particularmente, ocorre por meio das palavras (mal)ditas.
Façamos um breve exercício. Há somente dois modos de desautorizar a voz de uma minoria: não ouvir ou ouvir o que essa minoria tem a dizer. É evidente que não ouvir o que uma minoria tem a dizer é um modo de desautorizar sua voz. Mas parece estranho dizer que ouvi-la também possa ser uma forma de desautorizá-la.
Vou enunciar somente quatro situações em que ouvir o que uma mulher, um negro ou um homossexual tem a dizer pode, sim, ser um indício de desautorizar sua voz.
1º Desvalorização: quando eu tinha 11 anos, a professora de Ciências da 5ª série costumava chamar um colega da sala de aula de “macaquinho”. Aquele garoto era negro, baixo, fraco e frequentemente estava sonolento em sala de aula. Para piorar, aquele garoto parecia não encontrar forças para reagir contra a professora. Um dia, reclamamos da professora para a coordenadora da escola, dizendo que ela chamava aquele aluno de “macaquinho”. A professora reagiu dizendo que chamar aquele aluno de “macaquinho” era uma forma de carinho. Viram? A professora utilizou um eufemismo, ou seja, tentou suavizar a agressividade de sua palavra. Situação semelhante ocorreu com a nadadora Joanna Maranhão quando ainda era uma criança. Depois de ter dito à sua mãe que seu então técnico havia tentado beijá-la, a mãe respondeu que aquela atitude era uma forma de carinho. Preciso desenhar? Novamente, o eufemismo a serviço da desvalorização da voz da vítima.
2º Negar o sentido: esse caso é um verdadeiro atestado de burrice para a vítima. Uma pessoa estava dando seus primeiros passos para comunicar à família sua orientação sexual. No entanto, alguns parentes reagiam dizendo que “aquilo” era passageiro ou que, na verdade, era apenas um momento de confusão mental (oi?). A própria pessoa foi ouvida, mas o direito de atribuir sentido à sua existência por meio de suas próprias palavras lhe foi negado. Seria o mesmo que dizer: “você não sabe o que você está dizendo sobre si mesmo”.
3º Afirmar outro sentido: frequentemente, essa violência é cometida logo após a violência de “negar o sentido”. No exemplo anterior, vimos que não bastava negar o sentido das palavras ditas por aquela pessoa. Também era necessário que o agressor atribuísse a si mesmo a verdade e dissesse o que estava acontecendo com aquela pessoa: confusão mental.
4º Ressentimento: depois de concluída a primeira prova do Enem, que tinha uma questão baseada em uma citação da pensadora e feminista francesa Simone de Beauvoir, o promotor Jorge Alberto de Oliveira Marum postou no Facebook que “mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”. Revoltado com a questão do Enem, que colocava em evidência uma importante discussão a respeito do feminismo, das relações de gênero e, principalmente, da mulher, o promotor decidiu atacar ferozmente a própria pensadora, e não suas ideias. É o que se chama “argumentum ad hominem” em Filosofia, ou seja, argumento contra o homem, dirigido contra a própria pessoa, e não contra suas ideias.Mais uma vez, a voz de uma minoria (as mulheres) foi ouvida e comentada, mas de um modo que desautoriza o próprio pensamento que havia sido comunicado.
Há inúmeros outros modos de desautorizar a voz de uma minoria. De tudo isso, fica uma lição: ouvir não é suficiente, é preciso escutar. E escutar significa reconhecer o valor e a importância das palavras ditas por aquele que está sofrendo.

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