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Em defesa do livro didático (ou da boa reportagem)

Infelizmente, mais uma vez a imprensa deixou de trazer uma visão investigativa e crítica a respeito de uma tema de interesse social para reproduzir a visão simplista do senso comum. Na tentativa de condenar o binarismo dos livros didáticos, o colunista Fernando Schüler, em seu artigo É ético usar a sala de aula pra “fazer a cabeça” dos nossos alunos? (29 fev.), acabou cometendo o mesmo pecado que esperava condenar: a doutrinação pela simplificação. Com base no estereótipo de que os livros didáticos nacionais são politicamente doutrinários, o colunista buscou informações que pudessem reafirmar esse estereótipo. Perdeu a oportunidade de fazer uma análise crítica da atual situação dos livros didáticos do país. Também perdeu a oportunidade de reconhecer os avanços que os livros didáticos conquistaram nos últimos 20 anos.

Não vou me demorar neste texto. Deixo o link para quem quiser acessar a coluna de 29 fev. de Fernando Schüler (http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/fernando-schuler/noticia/2016/02/e-tudo-livro-manco-e-adivinha-para-qual-lado.html). Listei três pontos para criticar a maneira como Fernando fez sua análise dos livros didáticos. Em primeiro lugar, Fernando ainda não se deu conta de que o livro didático não é responsável pela doutrinação de nenhum aluno em sala de aula. O livro didático é um dos suportes, mas não é o principal agente do ensino. Dito de outro modo: houve uma supervalorização do papel formativo do livro didático. Se os livros de fato fossem doutrinários e se de fato fossem tão importantes assim na formação dos estudantes, já teríamos conhecido uma geração inteira de comunistas. Parece-me que isso não ocorreu. Existem muitos outros fatores que influenciam na formação do estudante, como o professor, por exemplo, e a própria família.

Em segundo lugar, somente dois períodos históricos foram analisados em sua coluna (ambos são períodos da história recente). Quase metade da análise é dirigida ao período político recente do Brasil, particularmente aos governos Lula e FHC, enquanto uma pequena parte é dedicada às ditaduras latino-americanas, particularmente a perspectiva adotada para avaliar a ditadura cubana. No entanto, enquanto o primeiro período não deve ocupar mais do que dez ou vinte páginas em um manual de História, o segundo não deve ocupar mais do que duas páginas. O que isso quer dizer? Quer dizer que Fernando ignorou quase toda a história da humanidade. Apenas isso. Não analisou a função dos símbolos no regime nazista, não se preocupou com as interpretações culturais sobre a Idade Média, fechou os olhos para as novas descobertas da pré-História. Também ignorou o esforço que os profissionais do livro didático de História vêm despendendo para estar em sintonia com as pesquisas acadêmicas mais recentes, além de negligenciar o tratamento inovador que os manuais vêm dedicando à leitura de imagem, de vídeo e de cultura material.

Em terceiro e último lugar, quando analisa o mundo do trabalho, lamenta que o livro de Sociologia não aborde as “incríveis perspectivas” do século XXI, marcada pelas sociedades de rede, pela revolução maker, pela explosão dos coworkings e pela economia colaborativa. No entanto, quantos milhões de brasileiros têm acesso a essas novas oportunidades que o mundo do trabalho está oferecendo? Fernando de fato acredita que a maioria dos profissionais brasileiros já superou a precariedade do trabalho e adentrou o maravilhoso mundo do Google? Ninguém nega a explosão dos coworkings nos grandes centros urbanos. Esse fenômeno pode ser valorizado (nisso estou de acordo com Fernando), mas não pode ser superdimensionado.

Creio que Fernando perdeu a oportunidade de realizar uma bela análise, utilizando todas as ferramentas conceituais de seu repertório (um cientista político com doutorado em Filosofia não chegou onde chegou sem esforço). Ele não está errado em dizer que existem pontos polêmicos em alguns livros didáticos e que poderiam ser revistos. O livro didático, assim como a imprensa, não está isenta de críticas. No entanto, ao contrário de levantar questões, de investigar a complexidade da produção de um livro didático e, o mais importante, de ouvir um profissional do livro didático, Fernando preferiu, por negligência ou má-fé, dizer, pura e simplesmente, que o livro didático é doutrinário, reproduzindo um estereótipo que circula com bastante desenvoltura no senso comum. Quem perdeu com isso? Todos nós, pois mais uma vez o estereótipo ruidoso é maquiado e alcança o estatuto de conceito estabelecido.

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