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Sobre homem e sobre estupro

Ontem, encontrei uma amiga que se encontrava excessivamente mal-humorada e arredia. Eu não sabia o motivo e perguntei a ela, que me relatou o estupro coletivo que havia ocorrido no Rio de Janeiro. Fui pesquisar algumas notícias e me deparei com a visão mais cruel do homem sobre a mulher. A vítima recebeu inúmeras mensagens de apoio, e muitos internautas se prontificaram para identificar e localizar os criminosos. A solidariedade que as mulheres vem criando nos últimos tempos é de uma dignidade infinita e de uma potência desconhecida. As mulheres não esperam mais alcançar uma única voz, mas multiplicar as vozes, reunir a voz de cada mulher e multiplicar suas forças. A mim, como homem, resta somente admirar a apoiá-las. Ao mesmo tempo, como homem, sinto-me livre para abordar outro homem.
A reação imediata de muitos homens é o de responsabilizar a vítima pelo crime sofrido por ela, ou seja, muitos homens querem retirar a vítima de sua condição de vítima. Dizem que se ela estivesse em casa não teria sido estuprada, que se estivesse vestida adequadamente não teria sido estuprada, que se estivesse na igreja não teria sido estuprada. Esses canalhas ignoram que a maioria do estupro ocorre no próprio lar, independentemente da roupa que essas mulheres vestem e da crença que professam. O estupro não ocorre com esta ou aquela mulher, mas com a mulher, com qualquer mulher. Por que, então, culpabilizar a vítima pelo estupro sofrido? Porque esses homens temem que suas pulsões violentas e sádicas mais obscuras possam ser reveladas.
Ao tomar conhecimento de um estupro, um homem poderia, pura e simplesmente, lamentar o crime ocorrido e exigir que os criminosos pagassem pelo crime cometido. No entanto, a maioria dos homens prefere culpabilizar a vítima. E por quê? Porque esses homens querem dizer que o que foi crime não é crime. E por quê? Porque esses homens não querem ser condenados por suas intenções criminosas. Quais intenções? A de estuprar uma mulher. Ao culpabilizar a vítima, esses homens querem se isentar de sua própria responsabilidade, de sua própria culpa.
Há aqueles homens que dizem “mas nem todos os homens são assim…”. Cretinos! Aprendam a silenciar e a escutar a dor e o sofrimento de uma mulher. Não se coloquem na frente da indignação de uma mulher. Não tentem desautorizar as injúrias proferidas por uma mulher contra o mundo pelo fato de ter visto sua irmã de gênero sendo violentada.
Sou homem e sou falho. Fui educado em uma cultura machista, mas tenho aprendido a não ser machista. Tenho aprendido, também, que não devo falar em nome das mulheres. Ao mesmo tempo, tenho aprendido que posso falar livremente a respeito da violência dos homens, pois essa violência eu conheço de perto. Outros homens pensam como eu e não somos menos homens por isso. Pelo contrário: somos muito homens para admitir que podemos ser homens sem precisar subjugar uma mulher. Não tenho vergonha de ser homem, mas não vou desculpar outro homem pelo crime cometido.

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