Início » Diagnósticos » A função provedora do homem em questão

A função provedora do homem em questão

Há dois dias (1º jun.), acompanhei minha companheira no ato “Por Todas Elas”, protesto contra o estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro no último dia 21 e, de modo geral, contra a cultura do estupro. Quando fiquei sabendo do ato, tive dúvidas se eu poderia ou não apoiá-lo presencialmente em virtude da gravidade do evento. Eu já estava familiarizado com o princípio de não protagonismo dos homens que apoiam o feminismo, mas aquela situação era diferente. Ao conversar com minha companheira, fiquei sabendo que não haveria problema em acompanhar o ato. O ato foi livre, diverso e politizado. Não quero me estender em comentários a respeito do feminismo, pois cabe a elas fazer esse tipo de avaliação, mas ser homem e participar de um ato de mulheres, por mulheres e para mulheres contribuiu para eu observar com maior contraste alguns traços do machismo.
Ao acompanhar o ato, notei que todos os homens presentes tomavam cuidado com o que diziam e com o que faziam. Não fazia sentido puxar palavras de ordem nem mesmo acompanhar as mulheres nesse coro. Os gritos de ordem eram dirigidos contra parte de minha própria história e contra o privilégio que um homem ocupa em uma sociedade machista. Não era a voz dos homens que devia se sobressair, e sim a voz das mulheres. Experimentar esse “constrangimento” foi muito positivo. Eu não participava, e sim acompanhava o ato.
O mais interessante, contudo, não foi esse constrangimento, e sim uma constatação dura e real: eu, enquanto homem, era dispensável. O apoio de homens ao feminismo não é insignificante, mas o feminismo existe mesmo sem o apoio dos homens. Esse afeto me levou a aprofundar a crítica à função provedora do homem. Não estou tratando somente do aspecto econômico da função provedora, e sim do aspecto simbólico. A função provedora do homem não o leva a prover somente as condições materiais, mas a prover as condições simbólicas de existência da mulher, a definir o sentido real da existência feminina. Quando essa função é colocada em questão, o homem torna-se, pura e simplesmente, dispensável para uma mulher.
A função provedora do homem deve ser criticada em todos os seus aspectos. Somente assim um homem poderá perceber que seu valor não estará condicionado à sua capacidade de sustentar materialmente uma mulher ou à sua competência em definir o sentido dos afetos e dos passos de uma mulher. Somente assim um homem perceberá que seu caráter e sua vida moral são muito mais amplos e mais complexos, muito mais ricos e diversos. Ao contrário de prover uma mulher, esperando que essa função o torne socialmente respeitável, caberá a esse novo homem uma tarefa muito mais radical: tomar conta de sua própria vida. Ou vocês achavam que o homem provedor assume essa função por generosidade?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: