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Como destruir a educação

As palavras extemporâneas, em sua maioria, são ambivalentes. Inoportunas, porque não foram ditas no momento adequado. Oportunas, porque impedem que o mistério até então não desvendado se cristalize e se solidifique. Já não carregam mais um efeito prático, mas preservam um efeito simbólico.
Em 26 de maio, a mídia noticiou a indignação de uma mãe a respeito da avaliação escolar de sua filha. De acordo com seu post no facebook, a prova de sua filha havia recebido a nota mínima em virtude de uma resposta elaborada por ela a determinada questão da avaliação.
A questão mencionada pela mãe estava dividida em duas partes. A primeira parte era um texto citado, transcrito de outro livro: “O processo de globalização, que vive o mundo de hoje, propõe como elemento de estabilidade social, econômica e política, o velho paradigma das leis de mercado. (…) sobrevive só quem tem competência”. A segunda parte era o enunciado propriamente dito da questão: “Considerando o texto acima, podemos afirmar que o capitalismo fundamenta a lógica imoral da exclusão. Justifique tal afirmativa”.
A resposta da filha foi a seguinte: “Não concordo que o capitalismo fundamenta a lógica imoral da exclusão. Muito pelo contrário. O capitalismo amplia empresas, gerando assim, empregos. O capitalismo dá oportunidades a todos, diferente do comunismo e socialismo que não deu certo em nenhum país. A exclusão não está relacionada ao capitalismo, porque ele não gera pobreza. Fica pobre quem quer, pois ele gera oportunidades. E também tem a meritocracia, que deve ser vista como um plus na sociedade, pois quando se recebe uma oportunidade é possível alcançá-la com mérito e dedicação.”
Por fim, o comentário da mãe em seu post do facebook: “Escola sem partido? Minha filha contestou ‘que o capitalismo fundamenta a lógica imoral (sic) da exclusão’ e levou um zero. Só obteve o ponto nesta questão manipuladora pois fui à direção da escola questioná-los.”
Também é importante destacar os títulos recebidos por essa notícia: “Facebook: mãe reclama de zero na prova da filha que ‘defendeu’ capitalismo” (http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/05/26/apos-defender-capitalismo-em-prova-aluna-leva-zero-e-mae-questiona.htm), “Adolescente ‘defende’ capitalismo, leva nota zero e mãe desabafa no Facebook” (http://vejasp.abril.com.br/blogs/pop/2016/05/26/adolescente-defende-capitalismo-zero/), “Menina ‘defende’ capitalismo em questão de prova, leva nota zero e mãe questiona: ‘Escola sem partido?’” (http://extra.globo.com/noticias/viral/menina-defende-capitalismo-em-questao-de-prova-leva-nota-zero-mae-questiona-escola-sem-partido-19380565.html).
Se iniciarmos nossa análise pelos títulos recebidos por essa notícia, não será difícil notar que, pelo menos nesses casos, todos os três veículos de comunicação se referem à resposta elaborada pela estudante como uma “defesa do capitalismo”. É importante notar, também, que o verbo defender (seja em “defendeu” ou em “defende”) está sempre entre aspas. Esse detalhe, aparentemente irrisório, é a chave para compreender a distorção realizada pela mídia e pela própria mãe a respeito da questão respondida pela estudante. Por causa desse detalhe, que insiste em aparecer nos títulos das três notícias, podemos nos perguntar, não se a estudante, de fato, defendeu o capitalismo, e sim se essa defesa do capitalismo foi o verdadeiro motivo de ela ter tirado nota zero. A nota mínima recebida pela estudante seria uma retaliação da professora pelo fato de ela ter defendido o capitalismo? A professora estaria realizando doutrinação ideológica em seus estudantes, impedindo que opiniões divergentes pudessem se manifestar em sala de aula? Nenhum critério pedagógico foi levado em conta?
Como já mencionei, a questão está dividida em duas partes. A primeira parte é um texto citado, enquanto a segunda parte é o enunciado propriamente dito. A tarefa que deve ser realizada pelo estudante encontra-se no enunciado da questão, ou seja, na segunda parte. O estudante deve justificar uma afirmação, apresentando as razões que tornam verdadeira uma afirmação. A afirmação que deve ser justificada é: “[…] o capitalismo fundamenta a lógica moral da exclusão.” O estudante, portanto, deve apresentar as razões que possibilitam que essa afirmação seja verdadeira.
A afirmação que deve ser justificada, por outro lado, está baseada no texto anterior, localizado na primeira parte da questão. A afirmação “o capitalismo fundamenta a lógica moral da exclusão” não é dita isoladamente, mas está baseada em um texto, em uma interpretação do mundo. E, de acordo com o texto anterior, a afirmação não está incorreta. Se, de acordo com o texto citado, “sobrevive [no capitalismo] só quem tem competência”, então está correto afirmar que “o capitalismo fundamenta a lógica moral da exclusão”, pois quem é incompetente está excluído desse processo.
A questão, portanto, exige que o estudante seja capaz de apresentar razões para que aquela afirmação, baseada em um texto de terceiros, seja verdadeira. Mesmo que o estudante não concorde com o ponto de vista expresso naquele texto, compreender as razões que supostamente legitimam uma ideia contrária à sua é uma das habilidades que todo estudante deve desenvolver. A resposta da estudante, portanto, não atendeu às exigências da questão. A resposta está incorreta, merecendo o zero que recebeu.
Tomemos um exemplo. Uma questão exige que o estudante explique quais foram as razões que levaram Charles Darwin a elaborar a teoria da evolução. O estudante responde que não concorda com o evolucionismo, pois a verdade encontra-se na Bíblia e, segundo a Bíblia, Deus criou o mundo e todas as espécies animais. A questão não exige que o estudante concorde com o evolucionismo, e sim que explique quais são as razões que tornam o evolucionismo cientificamente aceitável.
Mesmo que o leitor continue desconfiando de que houve doutrinação ideológica, ainda sim seria preciso relacionar essa questão com o restante das questões da prova e, em segundo lugar, relacionar a prova com os conteúdos ministrados naquele bimestre e naquele período letivo. Também seria preciso recuperar como aquele conteúdo foi ensinado em sala de aula e como a estudante havia sido a reação da estudante. Em nenhum momento a estudante havia se manifestado? Por qual motivo? E a mãe, por que postou no facebook somente a sua versão? Será que a professora não tinha uma justificativa adequada para aquela questão?
Avaliar a competência profissional de uma professora com base em uma questão de uma prova de um período letivo é, pura e simplesmente, um atestado de ignorância a respeito da educação. A defesa de uma escola sem partido, sob a justificativa de que haveria uma doutrinação ideológica nas escolas, é, ela mesma, ideológica. Quer entender o que é educação em nosso país? Escute o que os professores e pesquisadores em educação têm a dizer. Sem mais.

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