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O que podemos aprender com a Alemanha?

Nada. Absolutamente, nada. A história da Alemanha não tem nada a nos ensinar. Já não somos renascentistas, que, baseados em Cícero (106 a.C.-43 a.C.), repetiam solenemente a expressão latina Historia magistra vitae est (“a história é mestra da vida”). A história não nos ensina como evitar os erros cometidos no passado e o que devemos ou não devemos fazer no momento presente ou futuro. Também já não somos positivistas, que, inspirados por Auguste Comte (1798-1857), sustentavam que o desenvolvimento de todas as sociedades estava submetido a leis universais da história, ou seja, que havia somente uma única trajetória histórica aceitável. O desenvolvimento de cada sociedade e de cada Estado, contudo, é singular e irredutível à trajetória histórica de outras sociedades e Estados. Não existem essas leis universais.

A trajetória histórica e a experiência política de cada entidade política, no entanto, pode servir de contraponto para pensar o desenvolvimento de outras entidades políticas. Um aspecto da experiência política alemã após o fim do nazismo, por exemplo, pode contribuir para pensarmos a nossa própria experiência política contemporânea. A Alemanha se reserva o direito de não estender sua bandeira de modo ostensivo em locais públicos. O objetivo dessa interdição é evitar qualquer tipo de remissão, direta ou indireta, ao regime nazista. A bandeira da Alemanha e a bandeira adotada pelo nazismo não são a mesma. No entanto, para evitar a possibilidade remissão, acreditou-se que a interdição poderia ser mais um benefício do que um prejuízo.

A experiência política da Alemanha de evitar a utilização de símbolos nacionais em locais públicos é uma referência interessante para pensarmos o momento histórico que estamos vivenciando no Brasil. Durante a ditadura civil-militar brasileira, a utilização de símbolos cívicos e nacionais em locais e eventos públicos foi abusiva. Essa utilização não surgiu espontaneamente da sociedade civil, mas foi uma política conscientemente adotada pelo governo. O objetivo dessa política não era simplesmente promover o amor à pátria, e sim instituir o ódio contra aqueles que supostamente atentavam contra a pátria. E quem atentava contra a pátria? Justamente aqueles que não estavam de acordo com as políticas adotadas pelo governo. Criava-se, assim, a oposição entre “nós” (brasileiros) e os “outros” (inimigos da pátria).

Não nos enganemos: todo nacionalismo conduz a uma oposição antagônica e conflituosa entre “nós” e os “outros”. O nacionalismo sempre é perigoso, pois é um sentimento coletivo que inevitavelmente resulta, em maior ou menor grau, em intolerância contra o diferente, o divergente. O nacionalismo foi utilizado eficazmente pelo nazismo, pela ditadura civil-militar e, pasmem, pelo movimento pró-impeachment. A utilização de camisas da seleção brasileira pelos manifestantes pró-impeachment não era casual, mas enviava uma mensagem clara: eles acreditavam defender a nação de um ataque orquestrado por inimigos. A expressão elaborada durante a ditadura civil-militar “Ame-o ou deixe-o” poderia, sem nenhum prejuízo, ser adotada como lema dessas manifestações.

Ao compararmos a experiência política alemã e a brasileira, notamos que a utilização ostensiva de símbolos nacionais por movimentos sociais conservadores nos mostra que, ao contrário do que ocorreu no país germânico, nós não estabelecemos uma ruptura com a ditadura civil-militar. A expressão “transição democrática”, utilizada para nomear a passagem entre o fim do governo autoritário e o início do governo democrático, não é utilizada por acaso. Por mais absurdo que possa parecer, estabelecemos uma continuidade entre um governo anti-democrático, autoritário e um governo democrático. Não houve uma descontinuidade estrutural com aquele nefasto período de nossa histórica política. É por esse motivo que políticos sentem-se livres para elogiar torturadores, que policiais sentem-se livres para abusar cotidianamente de seu poder, que cidadãos sentem-se livres para realizar performances que se enquadrariam perfeitamente nas manifestações de apoio à ditadura civil-militar. Desgraçadamente, o autoritarismo convive de mãos dadas com a democracia em nosso país. Não enterramos o morto, mas nos esforçamos para conservá-lo presente na mesa de jantar.

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