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O que é aceitável no projeto Escola Sem Partido?

O nome, somente o nome. Uma escola sem partido, não partidária nem partidarizada, não somente é possível como também já é efetiva no sistema educacional brasileiro. A Constituição Federal prevê um sistema educacional democrático, pautado pelo “pluralismo de ideias e de concepção pedagógicas” (CF, art. 205, inciso III), e o próprio sistema educacional efetivo em nosso país está baseado em experiências que acolhem a diferença e as opiniões divergentes. Não existe, no Brasil, uma escola de um partido político.
Os partidários da Escola Sem Partido, de dedo em riste, logo se levantam para objetar. Dizem que o sistema educacional brasileiro tem servido a uma doutrinação política e ideológica esquerdista. Essa doutrinação teria alcançado desde as experiências mais singulares em sala de aula como a produção dos livros didáticos. Quando pedimos a esses partidários para justificarem sua tese, rapidamente recordam de uma experiência da qual foram testemunhas ou de uma breve passagem em um livro didático. As experiências relatadas pelos partidários da Escola Sem Partido, frequentemente contadas nos dedos de uma mão, mencionam professores que fizeram a crítica do capitalismo ou que manifestaram pontualmente sua opinião partidária em sala de aula. As passagens dos livros didáticos mencionadas por esses partidários não fogem muito a essa regra: de uma coleção com mais de 600 páginas, divididas em três volumes, citam quatro, cinco parágrafos considerados suspeitos de doutrinar e ideologizar os estudantes.
Quando Aristóteles estabeleceu a distinção entre ação virtuosa e vida virtuosa, ele relembrou um provérbio: “uma andorinha não faz verão”, ou seja, uma ação virtuosa não faz uma vida virtuosa. Esse argumento pode ser utilizado para avaliar as críticas dos partidários da Escola Sem Partido contra o sistema educacional brasileiro. Testemunhar uma ou duas experiências em sala de aula consideradas doutrinárias ou reconhecer a ideologia supostamente presente em brevíssimas passagens de um enorme livro didático não transforma um sistema educacional em um espaço de doutrinação política.
Vamos adiante. Vamos supor que os partidários da Escola Sem Partido estejam corretos: que o sistema educacional brasileiro estivesse tomado por uma enorme quantidade de experiências doutrinárias em sala de aula e que inúmeras páginas dos livros didáticos estivessem contaminadas por uma ideologia partidária de esquerda. Se é verdade que a educação no Brasil é totalmente ideológica e doutrinária, por que, então, não vivemos em uma nação de jovens e adultos alinhados com a ideologia do Partido Comunista? Por um motivo muito simples: os alunos não são vítimas do professor, mas pensam por si próprios. Se de fato existisse essa doutrinação que a Escola Sem Partido supõe, podemos afirmar, sem sombra de dúvidas, que ela não deu certo.
Para criticar a Escola Sem Partido, alguns têm argumentado que não existe conhecimento sem ideologia. Esse argumento é incorreto, pois o conhecimento científico preserva, sim, alguma autonomia em relação à ideologia (o próprio Karl Marx, o PAI do comunismo, já sustentava essa posição). O pesquisador sério é capaz de não distorcer sua pesquisa para adequá-la à sua ideologia partidária. No entanto, nenhum pesquisador é onisciente. Nenhum pesquisador é capaz de alcançar o ponto de vista de Deus para produzir conhecimento científico. Toda pesquisa científica (até mesmo as pesquisas realizadas pelos laboratórios farmacêuticos) é realizada com base em uma visão de mundo, com base em uma perspectiva, com base nos objetivos que quer alcançar. Isso não significa que o conhecimento seja mais ou menos científico.
Para iniciar o fim desse artigo, quero dizer a palavra correta a respeito do principal objetivo da Escola Sem Partido: perseguição. Os partidários da Escola Sem Partido podem até ser bem intencionados (apesar de que pouco me importa suas reais intenções), mas o principal efeito desse projeto é criar um ambiente de perseguição e censura nas escolas. Os problemas que poderiam ser contornados ou discutidos entre os professores e a comunidade escolar se tornariam, com a Escola Sem Partido, em motivo de perseguição, de denúncia, de censura. A Escola Sem Partido é o avesso, é o oposto da democracia. É a pior alternativa para contribuir para o desenvolvimento educacional do país.

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