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Renúncia ao saber e ignorância por convicção

O site do UOL (https://noticias.uol.com.br/confere/ultimas-noticias/2017/08/17/nazismo-e-um-movimento-da-esquerda.htm) publicou uma matéria para esclarecer que o nazismo não é um movimento de esquerda. Consultaram historiadores de diferentes instituições para argumentar e corrigir o equívoco. Fiz questão de acompanhar alguns comentários. A imensa maioria não deve ter lido a matéria. Se leu, não entendeu. Se entendeu, não quis admitir que entendeu. Os comentários desautorizavam a matéria, afirmando, sem o saber, que foram consultados somente historiadores marxistas. Não satisfeitos, desacreditaram a idoneidade do site, dizendo que o UOL era um site de esquerda.

Lembrei-me de uma discussão que travei com pessoas próximas há algum tempo a respeito dessa mesma questão e do absurdo que é o escola sem partido. Argumentei com base na minha formação acadêmica (história e filosofia) e na minha experiência profissional (professor e editor de livro didático). Contudo, isso não foi suficiente. Diziam que cada um pode ter sua opinião e que não aceitariam a opinião de alguém somente por ser acadêmico.

O que pude concluir dessa minha discussão e dos comentários do UOL? Que aprendizado podemos inferir quando os estudos e as experiências profissionais deixam de ser um bom fundamento a uma análise e são equiparados às meras opiniões do senso comum? Cada um tem direito a elaborar sua própria opinião, mas desacreditar uma opinião diferente da sua, principalmente quando foi fundamentada, isso se chama anti-intelectualismo, isso se chama obscurantismo intelectual, isso se chama ignorância por convicção.

Sustentar um ponto de vista com base em sua formação acadêmica e em sua experiência profissional não é, necessariamente, arrogância, e sim embasamento. Não devemos confundir isso com a desvalorização do saber não acadêmico. E penso que muitos conhecidos (ou mesmo pouco conhecidos) meus já abdicaram de seus conhecimentos acadêmicos e de suas ricas experiências profissionais quando se trata do debate político e social. Não devemos renunciar ao que sabemos por temermos ser chamados de arrogantes, de convencidos ou de parecermos respirar um ar de superioridade. O que devemos fazer é reconhecer o que sabemos e os limites desse saber – e reconhecer os limites do que se sabe é mais difícil do que renunciar ao saber que se sabe. Renunciar ao saber é aplaudir a ignorância.

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