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Nenhum comentário é ingênuo

No início da tarde de 29 ago., uma mulher sofreu uma violência sexual no interior de um ônibus que transitava pela Av. Paulista. Um homem havia ejaculado em seu pescoço sem o seu consentimento. O crime foi rapidamente noticiado, divulgado e debatido. Muito tem se escrito a respeito desse episódio repugnante. Não quero entrar no debate jurídico ou político do tema, mas quero levantar uma importante questão: a minimização do crime.

Em alguns sites de notícia, comentários raivosos diziam reconhecer a gravidade do crime, mas também afirmavam que a vítima estava sendo oportunista, conquistando seus “quinze minutos de fama”. Quero basear minha análise nesses comentários.

A função dos comentários é ambígua. Por um lado, dizem reconhecer a gravidade do crime, mas condenam o suposto exagero ou excesso da visibilidade concedida à vítima. Alguns comentários chegam a dizer que a vítima foi oportunista. Apesar de não ter escolhido sofrer a violência sexual, a vítima se aproveitou desse acontecimento para alcançar fama e visibilidade.

Reconhecer a gravidade do crime não era o objetivo desses comentários, e sim adquirir o “passaporte da alegria” para ingressar no debate, ser aceito pela opinião pública e adquirir credibilidade. Todos aqueles que redigiram comentários desse tipo sabiam que não receberiam qualquer credibilidade se não reconhecessem a gravidade do crime. No entanto, o objetivo desse reconhecimento era chamar a atenção para o discurso que viria logo em seguida: associar a divulgação da notícia com um suposto oportunismo da mulher que havia sido vítima de uma violência sexual.

A associação entre a divulgação da notícia e um suposto oportunismo tinha a intenção de minimizar, desacreditar, deslegitimar a fala da vítima. Com isso, seria possível impedir que esse evento pudesse, mais uma vez, levantar uma questão fundamental em nossa sociedade: a violência do homem sobre a mulher. Quanto menos se falasse, mais chances haveria de manter no silêncio essa questão.

Abordar o tema da violência do homem sobre a mulher incomoda a muitas pessoas porque essas muitas pessoas se veem implicadas nessa violência. Seriam obrigadas a rever a educação que receberam de seus pais, os laços afetivos que mantem com seus amigos, as experiências amorosas que vivenciam ou vivenciaram com seus parceiros ou parceiras, os valores preservados durante anos de sua existência. Um evento dessa magnitude não passa indiferente para ninguém. Aqueles que querem minimizar sua importância são o melhor exemplo da importância desse tema nos dias de hoje.

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